O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cancelou na tarde desta quinta-feira (11) os ataques militares ao Irã previstos para a noite e anunciou no Salão Oval que os dois países chegaram a "um grande acordo de paz". O petróleo Brent despencou até 4% em resposta, mas o Irã não confirmou formalmente nenhum entendimento, e um alto funcionário iraniano ligado às negociações disse a veículos internacionais que nenhum memorando de entendimento foi assinado.
O que Trump disse
Trump afirmou que os EUA e o Irã chegaram a um entendimento para encerrar o conflito iniciado em 28 de fevereiro com ataques conjuntos americanos e israelenses. Segundo ele, o acordo prevê a extensão do cessar-fogo em vigor desde abril e a reabertura do Estreito de Ormuz. A assinatura do documento deve ocorrer "nos próximos dias", provavelmente em um país europeu. O presidente americano evitou confirmar o prazo de 60 dias discutido nas negociações, dizendo que não quer ser cobrado caso o prazo não seja cumprido.
Horas antes do anúncio, Trump havia ameaçado em redes sociais atacar o Irã "muito duramente esta noite" e tomar o controle total de sua indústria de petróleo e gás. A virada aconteceu depois que ele postou que pontos significativos das negociações "foram levados ao mais alto nível da liderança iraniana e aprovados".
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Irã diz que nada foi finalizado
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, afirmou em pronunciamento ao vivo na televisão estatal que mediadores continuam ativos e que nada foi concluído. Baghaei disse que o texto do acordo "está majoritariamente definido", mas atribuiu as turbulências no processo às "contradições na posição americana". Um alto funcionário iraniano ouvido pela MS NOW foi mais direto: o Irã ainda não concordou com nenhum memorando de entendimento ou estrutura de acordo com os EUA.
Israel diz que não faz parte do entendimento
O escritório do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu comunicou que Israel não é parte do acordo emergente entre EUA e Irã. Os dois líderes conversaram por telefone sobre o "memorando de entendimento emergente", mas Israel mantém seu objetivo de destruir o Hezbollah no Líbano, uma exigência iraniana para qualquer encerramento também do front libanês.
Trump ameaça tomar terminal de petróleo do Irã e recua
Antes de anunciar o acordo, Trump havia ameaçado tomar a Ilha Kharg, terminal por onde passam 90% das exportações de petróleo iranianas. Poucas horas depois, recuou. "Não sei se a América tem estômago para isso, para ser honesto", disse em entrevista à Fox News, descartando o envio de tropas para ocupar a instalação.
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, anunciou em paralelo que os EUA pretendem extrair recursos de contas iranianas congeladas para compensar danos causados a aliados americanos e cobrir os pedágios cobrados pelo Irã de navios que cruzavam Ormuz.
Bloqueio naval: nove embarcações atingidas, três marinheiros indianos mortos
O Comando Central dos EUA confirmou que atingiu o nono navio desde o início do bloqueio naval aos portos iranianos: o cargueiro M/T Jalveer, de bandeira da Guiné-Bissau, flagrado tentando burlar as restrições com petróleo iraniano. Na terça-feira, três marinheiros indianos morreram quando forças americanas atingiram o M/T Settebello, de bandeira de Palau. O governo americano disse ter emitido avisos antes de abrir fogo. O secretário-geral da Organização Marítima Internacional da ONU condenou o ataque.
Mercados reagem: petróleo no nível mais baixo desde abril
O Brent recuou 4,2% para US$ 89,15 o barril no mercado estendido, o menor patamar desde abril de 2026. O WTI, referência americana, caiu 3,9% para US$ 86,51. No fechamento regular, o Brent encerrou a US$ 90,38 e o WTI a US$ 87,71. As bolsas americanas subiram com a notícia. A Fitch Ratings projeta que o Estreito de Ormuz pode ser reaberto por volta do final de julho, com o Brent encerrando o ano em média de US$ 87 o barril.
O padrão Trump: quinze semanas de guerra e dezenas de anúncios de acordo sem resultado
A guerra dura 15 semanas, três vezes mais que a previsão inicial de Trump de quatro a cinco semanas. Ao longo desse período, o presidente americano afirmou dezenas de vezes que um acordo estava iminente sem que nada fosse concluído. Em abril, ameaçou que "toda uma civilização morreria naquela noite" caso o Irã não aceitasse seus termos, e depois estendeu o cessar-fogo. Esta semana, sugeriu que um entendimento poderia ser fechado em dias, enquanto os dois lados voltavam a trocar ataques.
Para além da confirmação iraniana, dois impasses centrais permanecem: o programa nuclear de Teerã, que os EUA e Israel temem poder ser convertido em arma atômica, mas que o Irã insiste ser para fins pacíficos, e a situação do Hezbollah no Líbano. Sem esses pontos equacionados, qualquer extensão de cessar-fogo segue frágil.
Impacto para o Brasil
A queda de até 4% no Brent nesta tarde abre margem para redução de preços de combustíveis no Brasil, mas o efeito não é imediato: a Petrobras calibra preços com defasagem e leva em conta também o câmbio. Com o recuo do risco geopolítico, o dólar tende a perder força, o que beneficia o real e reduz pressão inflacionária. O Ibovespa acompanhou a valorização internacional.
A Petrobras havia perdido quase R$ 100 bilhões em valor de mercado em maio, durante a intensificação dos combates. A reabertura de Ormuz, caso se concretize, tende a pressionar os preços do petróleo para baixo, movimento de efeito dúbio para a estatal, que é também grande exportadora de óleo.



