O Brasil e a Coreia do Sul criaram um grupo de trabalho para tentar retomar as negociações de um acordo comercial entre o país asiático e o Mercosul. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (27) pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Lee Jae-myung, após reunião no Palácio da Alvorada, em Brasília.

O vice-presidente Geraldo Alckmin ficará responsável pela coordenação do grupo pelo lado brasileiro. Segundo Lula, a equipe deverá identificar as chamadas sensibilidades dos dois lados e buscar soluções para que as divergências não impeçam a retomada das conversas.

A criação do grupo, porém, não significa que o acordo tenha sido concluído. Os governos não anunciaram um texto final, um calendário de redução de tarifas nem a data de uma nova rodada formal.

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Negociação não tem rodada formal desde 2021

As negociações entre Mercosul e Coreia do Sul começaram oficialmente em maio de 2018. Desde então, foram realizadas sete rodadas, a última delas entre 30 de agosto e 9 de setembro de 2021, por videoconferência.

O histórico publicado pelo Siscomex informa que o acordo continua formalmente na agenda externa do Mercosul, mas registra que nenhuma nova rodada negociadora foi realizada desde 2021. As discussões abrangem tarifas sobre bens, serviços, investimentos, comércio eletrônico, propriedade intelectual, compras governamentais e regras sanitárias.

Lee defendeu que as conversas avancem diante das incertezas no comércio internacional. Para o presidente sul-coreano, o acordo poderia facilitar a entrada de empresas coreanas na América do Sul e ampliar o acesso brasileiro ao mercado asiático por meio da Coreia.

Consulta expôs resistência de setores brasileiros

O grupo coordenado por Alckmin também terá de lidar com divergências dentro do Brasil. Entre abril e maio de 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços realizou uma consulta pública para mapear oportunidades, riscos e setores sensíveis antes de uma eventual retomada.

Das 61 manifestações consideradas válidas, 34 foram favoráveis ao acordo, 12 contrárias, 14 apresentaram reservas e uma foi indiferente. Embora os favoráveis tenham sido maioria, 26 participantes rejeitaram a proposta ou condicionaram o apoio à adoção de cuidados específicos.

O governo não revelou quais produtos e setores foram apontados como mais sensíveis. Segundo o relatório, a divulgação dessas informações poderia expor prioridades e limites da posição brasileira durante uma futura negociação.

Entre os assuntos mais mencionados pelos participantes estavam defesa comercial, com 31 citações, facilitação de comércio e cooperação aduaneira, com 29, salvaguardas bilaterais, também com 29, e boas práticas regulatórias, com 26. Esses mecanismos podem ser utilizados para reduzir o impacto de uma abertura rápida sobre setores da produção nacional.

O que Brasil e Coreia negociam

Brasil e Coreia do Sul movimentaram aproximadamente US$ 10,8 bilhões em comércio bilateral durante 2025. As exportações brasileiras chegaram a cerca de US$ 5,5 bilhões, enquanto as importações de produtos sul-coreanos somaram US$ 5,3 bilhões.

O Brasil vende principalmente petróleo, minério de ferro, celulose, soja e carnes. As importações provenientes da Coreia incluem semicondutores, produtos eletrônicos, máquinas, veículos e autopeças.

A composição do comércio ajuda a explicar parte das divergências. Setores brasileiros buscam acesso preferencial ao mercado sul-coreano, enquanto a Coreia pretende ampliar a presença de sua indústria e de suas empresas de tecnologia no Mercosul.

Acordo ganha peso em meio à tensão com os EUA

A tentativa de retomar o acordo ganhou peso adicional em meio à escalada comercial entre Brasil e Estados Unidos. Em julho, o governo de Donald Trump colocou em vigor uma sobretaxa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros e anunciou outra cobrança, de 12,5%, ligada a uma investigação sobre trabalho forçado nas cadeias globais.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as novas medidas alcançam, em conjunto, 23,1% das exportações brasileiras ao mercado americano, considerando os dados comerciais de 2024. Em alguns casos, as cobranças podem ser acumuladas.

Lee Jae-myung citou as “incertezas no âmbito comercial” ao defender que o acordo entre Mercosul e Coreia do Sul não pode mais esperar. A negociação não foi apresentada pelos presidentes como uma retaliação aos Estados Unidos, mas ocorre enquanto o Brasil busca ampliar mercados e reduzir os riscos provocados pela concentração de exportações em poucos parceiros.

Outros acordos assinados

Além da discussão comercial, Brasil e Coreia do Sul assinaram instrumentos de cooperação em educação, energia, tecnologia industrial, atividades espaciais e esporte. Os presidentes também trataram de minerais críticos e de cadeias de suprimento.

Esses documentos são separados do acordo de livre comércio com o Mercosul. Para que o tratado comercial avance, ainda será necessário conciliar as posições da Coreia do Sul, do Brasil e dos demais integrantes do bloco sul-americano.