Pessoas que apostaram dinheiro sobre futuras operações militares dos Estados Unidos apresentaram um índice incomum de acertos, incluindo movimentações realizadas horas antes de ataques que ainda não haviam sido anunciados publicamente.

Um novo levantamento do Anti-Corruption Data Collective identificou 152 contas com taxa média de vitória de 97,2% em apostas relacionadas a temas militares e de defesa. Juntas, elas acumularam cerca de US$ 8 milhões em ganhos.

As operações aconteceram na Polymarket, uma plataforma em que usuários apostam dinheiro sobre acontecimentos futuros, desde eleições e decisões políticas até guerras e ações militares.

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Apostas aconteceram antes de ataques

Um dos episódios analisados envolve os ataques dos Estados Unidos contra instalações nucleares do Irã em junho de 2025.

Nas horas anteriores à operação, pesquisadores identificaram apostas relevantes prevendo que um ataque americano ocorreria justamente naquele período.

Em um estudo anterior, o grupo encontrou 19 grandes apostas de baixa probabilidade relacionadas às datas próximas ao ataque. Oito contas tiveram aproximadamente US$ 1,8 milhão em lucro conjunto.

Uma delas ganhou perto de US$ 500 mil.

O problema é que o momento exato da operação não havia sido anunciado publicamente. Segundo o estudo, os Estados Unidos ainda adotaram medidas para dificultar a identificação antecipada do ataque, incluindo o uso de aeronaves e movimentos destinados a despistar observadores.

Em toda a amostra analisada anteriormente, apenas 14% das apostas consideradas improváveis terminaram vencedoras. Quando o assunto era ação militar, o percentual chegou a 52%.

No novo levantamento divulgado nesta quinta-feira (20), os pesquisadores reduziram o universo para contas com comportamento considerado ainda mais fora do padrão. Entre aquelas que apostaram especificamente sobre temas militares, a taxa média de vitória chegou a 97,2%.

Militar dos EUA já foi acusado de apostar usando informação secreta

A preocupação não é apenas hipotética.

Em abril deste ano, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusou um militar de usar informações classificadas para apostar sobre uma operação americana antes que ela se tornasse pública.

Gannon Ken Van Dyke participou do planejamento da operação dos Estados Unidos que terminou com a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, segundo a acusação.

Depois da operação, as apostas teriam rendido aproximadamente US$ 409 mil.

Van Dyke responde a acusações criminais, mas ainda não foi condenado.

Uma aposta pode entregar que algo está prestes a acontecer

Há ainda uma preocupação adicional.

As apostas feitas na Polymarket podem ser acompanhadas publicamente. Isso significa que, quando alguém coloca uma grande quantia em um acontecimento improvável, outras pessoas conseguem perceber a movimentação.

Os pesquisadores encontraram situações em que uma conta fazia uma aposta incomum e, pouco depois, grandes apostadores e sistemas automatizados começavam a apostar na mesma direção.

Na prática, uma pessoa que soubesse antecipadamente de uma operação militar poderia não apenas ganhar dinheiro: sua própria aposta poderia funcionar como um alerta de que alguma coisa estava prestes a acontecer.

Esse sinal poderia ser percebido por outros investidores, mas também, segundo os pesquisadores, por governos ou serviços de inteligência estrangeiros.

Polymarket diz combater apostas com informação privilegiada

A Polymarket afirma proibir o uso de informações confidenciais para apostar e diz monitorar transações em busca de comportamentos suspeitos.

A empresa afirma já ter encaminhado mais de 90 contas às autoridades e sustenta que a transparência das transações facilita investigações sobre possíveis abusos.

O estudo, entretanto, argumenta que mercados envolvendo guerras e operações militares apresentam um problema particular: determinadas respostas podem ser conhecidas antecipadamente por um número muito pequeno de pessoas dentro de governos e forças armadas.

Por isso, os pesquisadores defendem restrições mais severas a apostas sobre acontecimentos militares e outros eventos diretamente dependentes de informações governamentais sigilosas.