A estreia do Irã na Copa do Mundo de 2026 contra a Nova Zelândia, nesta segunda-feira (15), em Los Angeles, ganhou peso político antes mesmo de a bola rolar. Iranianos-americanos planejam protestos contra o governo de Teerã e contra a guerra recente entre Estados Unidos e Irã, em um jogo que coloca a FIFA diante de um teste sobre segurança, liberdade de expressão e símbolos políticos nos estádios.

A partida pelo Grupo G está marcada para 18h no horário local, 22h em Brasília, em Inglewood, na região de Los Angeles. Segundo a Reuters, cerca de uma dúzia de manifestantes já havia se reunido perto do estádio pela manhã, com atos maiores esperados ao longo do dia.

O caso expõe uma das principais contradições da Copa nos Estados Unidos: o torneio tenta se vender como festa global, mas seleções envolvidas em tensões diplomáticas chegam ao país cercadas por restrições, protestos e disputas de narrativa.

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A seleção iraniana desembarcou nos EUA no domingo, vinda de sua base em Tijuana, no México, pouco depois do anúncio de um acordo para encerrar a guerra entre Washington e Teerã. Nas últimas semanas, a federação iraniana reclamou que parte da delegação não recebeu vistos americanos e que ingressos destinados a torcedores teriam sido retirados.

Protestos, bandeiras e segurança

Los Angeles concentra uma das comunidades iranianas mais importantes fora do Irã. Parte desses torcedores vive um dilema: acompanhar a seleção em campo ou evitar uma presença que possa ser interpretada como apoio ao governo iraniano.

O ponto mais sensível é a disputa sobre símbolos. Integrantes da diáspora indicaram que poderiam tentar levar ao estádio a bandeira pré-revolucionária do Irã, com o símbolo do leão e do sol, usada por opositores do regime. A bandeira oficial do país, por outro lado, é a que acompanha a seleção e o hino nacional.

A FIFA afirma que materiais de natureza política não são permitidos nos estádios da Copa. O código de conduta do torneio proíbe bandeiras, faixas, roupas, panfletos e outros itens políticos, ofensivos ou discriminatórios. Também exige inspeção de bandeiras e cartazes na entrada dos estádios e impõe limites de tamanho, salvo autorização prévia.

Esse enquadramento cria uma tensão prática: para a FIFA, a regra tenta preservar a neutralidade do evento; para opositores do regime iraniano, a restrição pode ser vista como silenciamento de uma manifestação política ligada à identidade nacional.

Seleção tenta falar em unidade

Do lado da equipe, o discurso é outro. O técnico Amir Ghalenoei e o atacante Mehdi Taremi buscaram apresentar a seleção como representante dos iranianos dentro e fora do país.

Taremi disse que a equipe respeita “todos os iranianos” e afirmou que o objetivo é levar alegria a torcedores espalhados pelo mundo. Ghalenoei também tentou reduzir o peso das tensões externas e disse que os jogadores estão acostumados a transformar dificuldades em oportunidade.

A tentativa de despolitizar a estreia, porém, enfrenta limites claros. A presença do Irã na Copa ocorre em meio a críticas ao governo de Teerã, restrições de entrada nos EUA e protestos de parte da diáspora iraniana. Mesmo a entrevista pré-jogo, que normalmente trataria de escalação, lesões e estratégia, foi dominada por perguntas sobre política e segurança.

Copa fora do campo

A estreia do Irã reforça a dimensão política da Copa de 2026. O torneio, sediado por Estados Unidos, México e Canadá, já vinha sendo marcado por debates sobre vistos, fronteiras, preços de ingressos e tratamento dado a delegações e torcedores.

No caso iraniano, essa tensão aparece de forma concentrada. A seleção precisou preparar parte da campanha no México, enfrenta restrições para permanência em solo americano e agora joga em uma cidade onde a diáspora iraniana tem força suficiente para transformar uma partida de fase de grupos em ato político.

Para a FIFA, o desafio é impedir que o estádio vire palco de confronto simbólico sem parecer indiferente a manifestações de torcedores que veem a seleção como extensão de uma disputa muito maior do que o futebol.