Em 2022, a campanha de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo recebeu uma doação oficial de R$ 2 milhões de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. O dinheiro foi declarado à Justiça Eleitoral. A novidade agora é outra: Vorcaro afirma que essa doação fazia parte de um acordo maior para manter um negócio ligado ao Banco Master funcionando dentro do sistema de consignados dos servidores paulistas.
A versão aparece em uma proposta de colaboração premiada de Vorcaro revelada pelo UOL. Segundo o ex-banqueiro, o suposto acordo teria sido articulado com Gilberto Kassab e envolveria o Credcesta, um cartão de benefício consignado operado pela PKL One Participações, empresa ligada ao grupo de Augusto Lima, então sócio de Vorcaro.
Mas o que era o Credcesta?
Na prática, o produto permitia que servidores estaduais obtivessem crédito e tivessem os pagamentos descontados diretamente da folha. Para a empresa, estar credenciada pelo Estado significava poder oferecer o produto a esse mercado de servidores. Não era um contrato em que o governo pagava dinheiro à PKL, mas uma autorização para participar do sistema de consignações.
Publicidade
A entrada da empresa aconteceu antes de Tarcísio. Em março de 2022, ainda no governo João Doria, São Paulo alterou as regras para permitir cartões de benefício consignado. Em 25 de maio daquele ano, a Secretaria da Fazenda deferiu oficialmente o credenciamento da PKL One para operar essa modalidade.
A acusação de Vorcaro, porém, não é de que Tarcísio tenha colocado a empresa no sistema.
O que Vorcaro diz que aconteceu depois da eleição
Segundo o relato apresentado pelo ex-banqueiro, quando Tarcísio passou a aparecer como provável vencedor da eleição de 2022, Augusto Lima buscou garantir que o Credcesta continuasse operando quando o novo governo assumisse.
Vorcaro afirma que Lima se aproximou de Gilberto Kassab, então apoiador de Tarcísio e posteriormente secretário de Governo. Dessa aproximação teria surgido o que ele chama de um “ajuste indevido” para garantir a continuidade do negócio.
O suposto acordo descrito por Vorcaro seria maior do que a doação a Tarcísio. Ele afirma que as contrapartidas incluíam 5% do resultado líquido da operação do Credcesta em São Paulo, R$ 5 milhões em doações eleitorais oficiais e aproximadamente R$ 10 milhões em dinheiro destinados a pessoas e campanhas ligadas ao PSD.
Dos R$ 5 milhões declarados oficialmente, R$ 2 milhões foram destinados à campanha de Tarcísio e R$ 3 milhões à campanha de Jair Bolsonaro. O doador registrado foi Fabiano Zettel. Vorcaro afirma ter pedido que o cunhado fizesse as transferências e diz, em seu próprio relato, que Zettel não conhecia a suposta motivação por trás delas.
A PKL continuou habilitada no sistema estadual depois que Tarcísio assumiu. Esse fato, sozinho, não revela por que a empresa permaneceu credenciada. É justamente a possível ligação entre essa continuidade e as doações eleitorais que os novos pedidos de investigação querem esclarecer.
O que dizem Tarcísio e Kassab
Tarcísio nega qualquer relação com Vorcaro e afirma que sua campanha recebeu mais de 600 doações, com as contas regularmente aprovadas pela Justiça Eleitoral. Sobre o Credcesta, o governo paulista destaca que a PKL foi credenciada em maio de 2022, antes da atual administração, e que o credenciamento não envolvia contrato nem repasse de dinheiro público.
O governador classificou a acusação como algo que “beira o ridículo”.
Essa cronologia confirma que a empresa já estava autorizada a funcionar antes de Tarcísio assumir. A versão de Vorcaro, no entanto, trata de outro momento: a suposta negociação para assegurar que o negócio continuasse depois da mudança de governo.
Kassab também nega o relato. Ele afirma conhecer Augusto Lima, mas diz que nunca discutiu com ele o Credcesta, doações eleitorais ou qualquer pagamento. Também nega ter recebido dinheiro e classifica as acusações como fantasiosas.
Agora há pedidos para investigar
O relato de Vorcaro fazia parte de uma proposta de colaboração que não foi aceita pela Polícia Federal e pela PGR. As autoridades consideraram que o material apresentado não reunia elementos suficientes para justificar o acordo nos termos propostos.
Nos últimos dias, porém, a acusação começou a gerar novos pedidos de investigação.
O deputado Alencar Santana pediu ao STF que as informações sejam examinadas dentro da Operação Compliance Zero. Em São Paulo, Erika Hilton e Sofia Favero acionaram o Ministério Público estadual para que sejam apuradas a origem econômica dos R$ 2 milhões, a possível participação de Kassab e a relação com a continuidade do Credcesta.
Até a publicação, não havia decisão pública do STF ou do Ministério Público de São Paulo anunciando a abertura de uma investigação específica contra Tarcísio ou Kassab por esses fatos.
A discussão ocorre em plena campanha eleitoral de 2026. Kassab integra a chapa presidencial de Ronaldo Caiado, enquanto Tarcísio disputa a reeleição em São Paulo. Com isso, uma doação registrada quatro anos atrás volta agora ao centro da disputa, não pela existência do pagamento, que sempre foi pública, mas pela versão de Vorcaro sobre o que ele representaria.



