A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, incluiu na nova proposta de colaboração premiada informações sobre o financiamento do filme Dark Horse (produção sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro) e sobre a relação do banqueiro com o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Mesmo assim, a tendência entre investigadores da Polícia Federal (PF) é rejeitar o material pela segunda vez, por avaliar que ele não apresenta fatos novos suficientes para sustentar um acordo formal.
As informações foram publicadas nesta terça-feira (9) pelo g1 e pelo O Globo, com base em fontes das investigações.
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Dark Horse e Flávio Bolsonaro: R$ 61 milhões sem configurar propina, diz defesa
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu dinheiro a Vorcaro para a produção do filme sobre o pai, e os pagamentos somaram R$ 61 milhões, informação que havia sido revelada pelo Intercept Brasil em maio e agora foi incorporada à proposta de delação.
O ponto central para os investigadores, porém, é a forma como a defesa enquadra esses repasses: segundo o g1, os advogados de Vorcaro não tratam os pagamentos para o filme como propina. A avaliação de integrantes da PF é de que essa abordagem enfraquece o valor probatório do material, que, para ser útil numa colaboração premiada, precisa confirmar não apenas os fatos, mas os atos de ofício de autoridades envolvidas.
Ciro Nogueira: mesada de R$ 500 mil e projeto de lei, mas defesa atenua
A proposta também menciona o senador Ciro Nogueira, alvo de operação da PF em maio de 2026. De acordo com as investigações, Vorcaro teria enviado ao parlamentar um envelope com um projeto de lei favorável a seus interesses, e a PF identificou ainda o pagamento de uma espécie de mesada de R$ 500 mil ao senador.
A defesa de Vorcaro, no entanto, atenua as responsabilidades de Nogueira em relação ao que a própria Polícia Federal já havia apurado de forma independente. Para os investigadores, isso representa mais um sinal de que o banqueiro age para proteger pessoas próximas, avaliação que vem sendo registrada pelos delegados ao longo da negociação.
PF vê tentativa de ganhar tempo; PGR adota cautela
Integrantes da PF consideram que os anexos entregues na última semana carecem de fatos novos e meios de prova, condição essencial para uma colaboração premiada ter validade. Há uma percepção entre os investigadores de que Vorcaro não estaria disposto a cooperar de verdade e estaria usando a negociação para permanecer numa cela especial na Superintendência da PF em Brasília, onde recebe advogados diariamente das 9h às 17h.
Esse benefício, no entanto, chega ao fim nesta sexta-feira (13). A partir de então, o banqueiro deve ser submetido ao procedimento padrão: visitas de até dois advogados com limite de 30 minutos cada.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) ainda analisa os novos anexos, mas mantém tom de cautela. Nos bastidores, a avaliação é de que o material precisa demonstrar de forma mais clara a capacidade de entregar fatos inéditos com corroboração independente: documentos, registros ou outros meios de prova que não dependam apenas das afirmações do próprio banqueiro.
Há dúvidas, segundo o O Globo, sobre a extensão do material a que Vorcaro ainda tem acesso: parte da documentação relevante pode não estar mais sob seu controle direto desde a liquidação do Banco Master e a transferência da gestão para um administrador.
A defesa, comandada pelo criminalista Sérgio Leonardo, contesta essa leitura. Interlocutores dos advogados afirmam que o material é consistente e traz histórias inéditas, e que a percepção de má vontade vem dos próprios investigadores.
Julho como prazo-limite e R$ 60 bilhões na mesa
Uma nova reunião entre advogados e integrantes da PF e da PGR está prevista para esta semana, para discutir os próximos passos. Os investigadores ainda não decidiram se pedirão novos complementos ou encerrarão as negociações, mas indicaram julho como prazo máximo para a definição, a fim de evitar a contaminação com o processo eleitoral de 2026.
Em maio, Vorcaro aceitou elevar de R$ 40 bilhões para R$ 60 bilhões o valor a ser devolvido em eventual acordo com a PGR, segundo o blog de Valdo Cruz no g1.
O que está em jogo: STF e limites da delação
Para ter validade jurídica, qualquer acordo de colaboração premiada precisa ser homologado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso Master na Corte. Mendonça já sinalizou que não aprovará uma colaboração que não acrescente fatos novos à apuração.
Se o acordo não for adiante, a PF e a PGR ficam legalmente impedidas de utilizar o conteúdo dos anexos já entregues pela defesa.
Enquanto isso, as investigações avançam de forma independente. A perícia nos mais de oito celulares apreendidos de Vorcaro já revelou que o esquema vai além de fraudes financeiras: os aparelhos apontam para corrupção, organização criminosa e o uso de uma milícia privada para atacar adversários e acessar dados sigilosos.



