O vereador de São Paulo Nabil Bonduki, presidente da Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica da Câmara Municipal e pré-candidato a deputado federal, divulgou nesta quinta-feira (23) um áudio atribuído a um funcionário demitido da CPTM.
No relato, o trabalhador afirma que ainda cumpre aviso-prévio e ajuda a treinar novos operadores da Trivia Trens para atuar nas linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade. Segundo Bonduki, a voz foi alterada para preservar a identidade do funcionário.
A publicação colocou no centro do debate uma questão incômoda para a transição conduzida pelo governo Tarcísio de Freitas: profissionais que estão deixando a estatal ainda seriam responsáveis por transmitir conhecimento a quem permanecerá na operação privada.
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Nabil preside em 2026 a comissão da Câmara responsável por analisar temas ligados ao transporte coletivo na capital. Arquiteto e urbanista, ele também é professor titular-sênior de Planejamento Urbano da USP, trajetória que dá peso institucional à cobrança apresentada publicamente.
Contrato prevê dependência da mão de obra da CPTM
O relato divulgado por Nabil se conecta diretamente ao desenho oficial da concessão. O contrato determina que a Trivia utilize mão de obra experiente da CPTM durante os primeiros 180 dias da operação assistida, em atividades de supervisão, operação e manutenção.
O objetivo registrado no documento é impedir que a transição provoque interferências na qualidade do serviço. Embora os trabalhadores permaneçam vinculados à CPTM, eles atuam sob orientação dos responsáveis indicados pela concessionária, que continua responsável pela operação.
A tabela contratual disponibiliza 475 profissionais da estatal para auxiliar a nova operadora. Desse total, 390 são maquinistas. O custo mensal previsto para ressarcimento à CPTM supera R$ 7 milhões.
O contrato, porém, não obriga a Trivia a incorporar permanentemente os trabalhadores da estatal. Para funcionários eventualmente desligados, a concessionária deve apenas realizar esforços considerados razoáveis para contratá-los, desde que tenham qualificação compatível com as vagas disponíveis.
A combinação dos dois pontos expõe uma contradição política e trabalhista da transição: o conhecimento acumulado pelos empregados da CPTM é tratado como essencial para manter o serviço, mas não existe garantia de que esses profissionais serão absorvidos pela nova operadora.
Áudio surge após incêndio no terceiro dia da Trivia
Nabil publicou o áudio no mesmo dia em que um incêndio atingiu um trem da Linha 12-Safira no trecho entre Brás e Tatuapé. O problema afetou também as linhas 11-Coral e 13-Jade, além do Expresso Aeroporto, e levou passageiros a deixarem composições e caminharem pelos trilhos.
A ocorrência foi registrada no terceiro dia da nova etapa de operação conduzida pela Trivia. A concessionária assumiu em 21 de julho a operação, a manutenção e a gestão das linhas, ainda sob assistência da CPTM e fiscalização da Artesp.
Antes de assumir o sistema, a Trivia declarou possuir mais de 2 mil empregados diretos e afirmou que suas equipes receberam, em média, mais de 1,3 mil horas de treinamento e capacitação. A empresa também apresentou a combinação entre funcionários novos e profissionais experientes da CPTM como parte da estrutura montada para garantir uma transição segura.
O áudio divulgado por Nabil desloca o debate para quem sustenta essa transição na prática. Ao dar publicidade ao relato, o vereador transforma uma experiência interna de trabalho em questionamento público sobre demissões, treinamento e dependência da estrutura estatal nas linhas concedidas pelo governo Tarcísio.


