Uma disputa pública entre Folha de S.Paulo e Metrópoles explodiu depois que mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro expuseram a relação do ex-controlador do Banco Master com veículos de comunicação.
Mas a sequência dos fatos importa.
O primeiro golpe desta nova crise atingiu o Metrópoles. Na quinta-feira (15), o UOL revelou mensagens em que Vorcaro recebia textos do portal antes da publicação, pedia alterações e discutia diretamente o conteúdo com Lilian Tahan, CEO do grupo. A Folha republicou a reportagem.
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No dia seguinte, o Metrópoles partiu para o contra-ataque. Em uma sequência de reportagens, passou a expor mensagens envolvendo uma reportagem da Folha sobre Vorcaro publicada em 2024, além de uma reunião do banqueiro na sede do jornal e valores pagos em publicidade.
As acusações contra a Folha levantam questões reais. Mas, olhando os documentos divulgados até agora, os dois casos não têm o mesmo peso.
O que apareceu primeiro sobre o Metrópoles
As conversas envolvendo o Metrópoles colocam Vorcaro diretamente em contato com quem comandava o portal.
Segundo o levantamento do UOL, pelo menos 14 textos foram enviados antecipadamente ao banqueiro e 11 sofreram alterações depois de pedidos feitos por ele. Há ainda registro de duas reportagens publicadas a pedido de Vorcaro.
Não se tratava apenas de ouvir o personagem antes da publicação.
Em uma conversa sobre uma possível comparação entre os balanços de Master e BRB, Lilian Tahan (CEO do Metrópoles) perguntou a Vorcaro:
“Ajuda ou atrapalha?”
Vorcaro respondeu que a pauta poderia ser boa e pediu para olhar o material antes. Tahan concordou. O texto foi publicado depois de ser submetido ao banqueiro.
Em outro episódio, Vorcaro pediu que uma referência à Hapvida (uma das maiores empresas de saúde privada do Brasil) fosse retirada de uma reportagem. O pedido foi aceito.
A relação fica ainda mais sensível em agosto de 2025.
Vorcaro pediu que o portal reduzisse temporariamente a cobertura sobre Ricardo Cappelli, que criticava a operação envolvendo Master e BRB.
A resposta de Tahan foi:
“Deixa comigo.”
Paralelamente, havia uma relação comercial de grande valor.
O Master fechou em 2024 um contrato de publicidade de R$ 20 milhões com o Metrópoles. Outra reportagem baseada nas mensagens do celular de Vorcaro apontou R$ 51,9 milhões em pagamentos autorizados ou negócios negociados com o grupo em 2024 e 2025.
Tahan afirma que consultar fontes antes da publicação faz parte de sua prática jornalística e nega que os contratos comerciais tenham interferido na cobertura. Também cita matérias críticas publicadas pelo próprio Metrópoles sobre empresas ligadas a Vorcaro.
A questão revelada pelas mensagens, porém, vai além da existência de publicidade: elas mostram o próprio banqueiro discutindo pautas, lendo textos antes da publicação e obtendo alterações.
O contra-ataque contra a Folha
Na sexta-feira (16), o foco mudou.
Às 19h25, a Folha publicou uma resposta às perguntas que havia recebido do Metrópoles e classificou a ofensiva como uma “retaliação” às revelações do dia anterior. O texto seria atualizado mais tarde para chamar a reportagem do concorrente de “mentirosa”.
Onze minutos depois, às 19h36, o Metrópoles publicou sua principal acusação.
O portal revelou mensagens entre Vorcaro e Guilherme Barros, profissional contratado para atuar na gestão de crise do banqueiro.
Em 7 de agosto de 2024, Vorcaro prometeu um prêmio de R$ 1 milhão a Barros caso ele conseguisse impedir naquele momento a publicação de uma reportagem que estava sendo preparada pela Folha.
No dia seguinte, Barros respondeu ao banqueiro:
“A Folha vai segurar a matéria.”
E acrescentou que Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha, havia respondido a ele.
Aqui está uma diferença fundamental.
Não há nas mensagens divulgadas uma negociação de R$ 1 milhão entre Vorcaro e a Folha.
O dinheiro foi prometido e depois pago por Vorcaro a Guilherme Barros, seu gestor de crise. O que liga a operação à Folha são as mensagens em que Barros afirma ao banqueiro ter conseguido interferir no andamento da reportagem.
Isso não torna o episódio irrelevante.
Mostra que Vorcaro estava disposto a desembolsar uma quantia milionária para tentar influenciar a cobertura jornalística e que seu intermediário dizia estar conseguindo resultados.
Mas é diferente de uma conversa em que a própria direção de um veículo recebe o texto, consulta o personagem sobre a conveniência da pauta e aceita pedidos de alteração.
A reunião que a Folha aceitou não divulgar
O Metrópoles também revelou que Vorcaro foi recebido na sede da Folha durante a apuração da reportagem.
A própria Folha confirmou a reunião.
Segundo o jornal, Guilherme Barros pediu o encontro para que Vorcaro pudesse apresentar sua versão às repórteres. A Folha afirma que também partiu de Barros o pedido para que a visita não fosse registrada no Painel, coluna que costuma informar encontros realizados na sede do jornal.
A Folha aceitou os dois pedidos.
Esse ponto merece escrutínio.
Receber um personagem investigado ou alvo de uma reportagem para ouvi-lo é parte normal da atividade jornalística. Aceitar esconder do registro público uma reunião que normalmente seria informada é outra questão, ainda mais quando agora se sabe que, nos bastidores, Vorcaro havia oferecido dinheiro a um intermediário para tentar barrar a publicação.
Não há, porém, evidência pública até agora de que Dávila (diretor de Redação da Folha) soubesse dessa promessa de R$ 1 milhão naquele momento.
Questionada diretamente pelo Metrópoles, a Folha disse que só tomou conhecimento do pagamento depois da divulgação das mensagens.
A matéria saiu, e não era simplesmente favorável
Outro ponto de disputa é o resultado da interferência atribuída a Barros.
A reportagem acabou sendo publicada em 30 de agosto de 2024.
O Metrópoles sustenta que alguns argumentos favoráveis ao Master sugeridos pelo gestor de crise apareceram no texto e que pontos incômodos a Vorcaro ficaram de fora.
A cronologia chama atenção: a matéria permaneceu publicada por cerca de 14 meses e foi atualizada em 18 de novembro de 2025, poucas horas depois da prisão de Vorcaro pela Polícia Federal. Segundo o Metrópoles, foi nessa atualização que trechos positivos sobre o banqueiro e o Master foram retirados.
A versão original de 2024, no entanto, também continha críticas ao Master, incluindo questionamentos sobre sua capacidade de pagamento, investigação da CVM, operações descritas como de natureza fraudulenta “em tese”, possível sobreavaliação de imóvel e risco de prejuízo envolvendo fundos com regimes de previdência entre seus cotistas.
Isso mostra que a reportagem não era inteiramente favorável ao banco, mas não elimina a questão central levantada pelas mensagens: se a atuação de Barros conseguiu alterar o tom, o timing ou o conteúdo final da publicação.
A Folha nega ter suavizado o material e afirma que as alterações feitas após a prisão serviram para atualizar a situação de Vorcaro e do Banco Master.
R$ 516 mil em publicidade também entram na disputa
O Metrópoles também perguntou quanto empresas ligadas a Vorcaro haviam gasto com publicidade na Folha.
O jornal informou ter recebido R$ 516.441,60 em anúncios entre 2021 e 2025.
A Folha usou o próprio número para estabelecer um contraste: o valor corresponde a uma pequena fração do contrato de R$ 20 milhões mantido pelo Master com o Metrópoles.
Receber publicidade de uma empresa que também aparece no noticiário não prova interferência editorial.
O ponto relevante é saber se dinheiro comercial e decisões jornalísticas passaram a se misturar.
É justamente aí que os documentos conhecidos até agora criam a maior diferença entre os dois casos.
Por que os dois casos não são equivalentes
Contra a Folha há elementos que justificam questionamentos.
Vorcaro queria adiar ou impedir uma reportagem.
Prometeu R$ 1 milhão ao seu gestor de crise.
O intermediário afirmou ter conseguido segurar a publicação e, depois, disse que o texto havia saído mais brando.
Vorcaro foi recebido na sede do jornal.
A Folha aceitou não registrar publicamente o encontro.
E empresas ligadas ao banqueiro compraram publicidade no jornal.
Nada disso deve ser ignorado.
Mas falta, no material tornado público até agora, o elemento que aparece repetidamente no caso Metrópoles: a negociação editorial direta entre Vorcaro e o comando do veículo.
Nas mensagens do Metrópoles, é a própria CEO quem envia textos ao banqueiro, pergunta se determinada pauta “ajuda ou atrapalha”, aceita pedido de retirada de informação e responde “deixa comigo” quando Vorcaro pede redução da cobertura sobre um crítico.
No episódio da Folha, a pessoa dizendo a Vorcaro que conseguira influenciar o jornal é Guilherme Barros, contratado pelo próprio banqueiro.
O pagamento de R$ 1 milhão também foi feito a Barros, não à Folha ou a Sérgio Dávila.
Essa distinção torna, com o material disponível atualmente, o caso do Metrópoles documentalmente mais direto e mais grave em relação à independência editorial.
Folha e Metrópoles transformam apuração em disputa pública
A reação dos dois veículos também virou parte da história.
Depois de ser alvo das reportagens sobre sua relação com Vorcaro, o Metrópoles publicou em sequência três textos sobre a Folha: um sobre o R$ 1 milhão pago ao gestor de crise, outro sobre a reunião não registrada publicamente e um terceiro destacando os R$ 516 mil recebidos em publicidade.
A Folha respondeu antes mesmo da publicação do primeiro deles e adotou um tom igualmente agressivo, classificando a ofensiva como retaliação e chamando posteriormente a reportagem de mentirosa.
Assim, a investigação sobre a estratégia de influência de Daniel Vorcaro na imprensa terminou abrindo uma segunda frente: uma guerra pública entre dois dos principais grupos de mídia do país para definir quem cedeu, e quanto cedeu, às pressões do banqueiro.
O conjunto das mensagens mostra que Vorcaro buscava acesso, influência e controle de narrativa em diferentes redações.
Como o Trendahora mostrou nesta semana, esse comportamento não se limitava a Metrópoles e Folha. Conversas com Frederic Kachar, então executivo do Grupo Globo, também misturavam reclamações sobre reportagens, pedidos de exposição e negociações comerciais. O Grupo Globo classificou aquela relação como inadequada e demitiu o executivo.
Nesse cenário, a disputa entre Folha e Metrópoles não elimina o problema revelado inicialmente.
Ela amplia o quadro.
Vorcaro não tentava apenas responder ao noticiário sobre ele. As mensagens indicam uma estratégia recorrente para interferir na forma como ele, o Banco Master e seus interesses apareciam publicamente.
E, entre os dois conjuntos de documentos que agora alimentam a briga, são as conversas diretas com a direção do Metrópoles que mostram, até aqui, a interferência editorial de forma mais explícita.



