A Meta reconheceu internamente que problemas em seus sistemas prejudicaram contas ligadas à campanha de Luiz Inácio Lula da Silva e que Flávio Bolsonaro apareceu em recomendações nas quais não deveria estar durante a eleição presidencial.
As informações aparecem em mensagens internas da empresa obtidas pela jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, e divulgadas nesta sexta-feira (16), a nove dias do segundo turno.
Em uma das conversas, um funcionário da Meta escreveu que a conta de Lula estava “limitada” em comparação à de Flávio. Em outros registros, integrantes da empresa reconheceram que o candidato do PL aparecia indevidamente em recomendações, enquanto o perfil de Lula enfrentava problemas até para ser localizado em determinadas buscas.
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O que as mensagens revelam
Os problemas não ficaram concentrados em uma única ferramenta.
No início de outubro, funcionários da Meta identificaram que o perfil de Flávio Bolsonaro aparecia recomendado em buscas no Instagram, embora as restrições eleitorais aplicadas pela própria plataforma impedissem esse tipo de recomendação para candidatos.
Nas conversas internas, a situação foi tratada como um “furo”.
Ao mesmo tempo, a conta de Lula chegou a não aparecer nem quando seu nome exato era pesquisado, situação em que o perfil deveria ser exibido. A justificativa técnica registrada internamente relacionou o problema ao tamanho do nome usado pela conta, e a empresa afirmou que a falha foi posteriormente corrigida.
A diferença também apareceu no WhatsApp.
Ao pesquisar pelo canal “Exército do Lula”, usuários receberam entre os resultados o “Canal do Lula”, a “Tropa do Flávio” e o Partido dos Trabalhadores.
Pelas regras aplicadas durante a eleição, canais de candidatos não devem ser oferecidos por recomendação algorítmica. A localização deveria depender da busca feita pelo próprio usuário.
Por que isso importa para a eleição
As regras definidas pelo TSE para 2026 são explícitas em relação à inteligência artificial: provedores que oferecem esses sistemas não podem ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidatos, campanhas, partidos ou coligações.
Também é proibido produzir favorecimento ou desfavorecimento político-eleitoral por respostas automatizadas.
A preocupação não está apenas no conteúdo publicado por uma campanha. Está também na forma como a plataforma decide quem aparece, quem é encontrado, quem é recomendado e quais conteúdos recebem distribuição.
Em uma eleição altamente dependente de Instagram, Facebook, WhatsApp e outras plataformas digitais, pequenas diferenças de funcionamento podem alcançar um número elevado de eleitores antes que uma correção seja feita.
O TSE tratou esse risco como urgente. Nesta quinta-feira (15), o ministro Marco Aurélio Bellizze determinou que a Meta dê tratamento igual às duas candidaturas e não reduza de maneira desigual a distribuição de publicações, impeça recomendações ou restrinja resultados de busca.
A decisão prevê multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento.
Bellizze também chamou atenção para o calendário: o segundo turno acontece em 25 de outubro e, segundo o ministro, uma falha ocorrida neste período próximo da votação pode não ser reparada depois do pleito.
Meta AI já havia mostrado diferença entre os candidatos
A divulgação das mensagens ocorre depois de outro episódio envolvendo a Meta.
Testes com a Meta AI mostraram que a ferramenta recusava pedidos para criar determinadas imagens eleitorais relacionadas a Lula, enquanto aceitava comandos equivalentes envolvendo Flávio Bolsonaro.
Após o caso chegar ao TSE, a empresa informou que havia reforçado seus filtros para impedir a recomendação de candidatos e a geração dessas imagens de acordo com as regras eleitorais brasileiras.
Na quinta-feira, durante reunião com representantes da Meta, o TSE afirmou que sua preocupação é garantir “paridade de armas” entre as duas campanhas.
A própria empresa informou ao tribunal que as duas candidaturas haviam sido afetadas naquela semana por problemas na geração de conteúdos considerados inadequados pela inteligência artificial.
Meta prometeu monitoramento eleitoral em tempo real
Há outro ponto relevante para entender o tamanho do problema.
Antes das eleições, a própria Meta anunciou a ativação de um Centro de Operações para Eleições no Brasil.
Segundo a empresa, a estrutura reúne profissionais de inteligência de ameaças, ciência de dados, engenharia, pesquisa, operações, área jurídica e políticas públicas para acompanhar acontecimentos eleitorais em tempo real.
A Meta também afirmou ter investido mais de US$ 30 bilhões em segurança na última década e disse trabalhar em parceria com as autoridades brasileiras para preservar a integridade do processo eleitoral.
As mensagens reveladas agora mostram, porém, funcionários reclamando internamente da demora para resolver um dos problemas envolvendo Lula.
No episódio de 9 de outubro, quando o perfil ficou quase 24 horas sem conseguir impulsionar publicações já postadas no feed, integrantes da Meta pediram que o caso recebesse classificação de gravidade elevada e registraram preocupação com a demora da equipe de engenharia nos Estados Unidos.
A diferença entre a estrutura anunciada pela empresa para monitoramento em tempo real e a resposta relatada nos chats internos passa a ser uma das questões centrais do episódio.
Meta diz que não favorece candidatos
A Meta nega ter favorecido qualquer candidatura.
À Folha, a empresa afirmou que os episódios tiveram causas distintas, incluindo problemas técnicos globais, um erro específico posteriormente corrigido e a aplicação das normas eleitorais brasileiras.
A companhia também afirmou que seus sistemas não são projetados ou operados para dar tratamento preferencial a candidatos ou partidos.
As mensagens mostram ainda episódios que atingiram Flávio Bolsonaro. Em setembro, por exemplo, as contas dos dois candidatos ficaram temporariamente impossibilitadas de subir anúncios após um erro relacionado a “atividade suspeita”. Em outubro, anúncios da campanha de Flávio também foram bloqueados após o sistema detectar possível uso de inteligência artificial, algo negado pela campanha.
Na decisão desta quinta-feira, Bellizze também registrou que, em análise preliminar, não havia elementos para concluir que a falha da Meta AI decorreu de um critério deliberado.
A questão que permanece
O fato novo desta sexta-feira não é apenas a existência de reclamações contra a Meta.
As mensagens mostram que funcionários da própria empresa identificaram diferenças concretas no funcionamento de seus sistemas enquanto Lula e Flávio disputam a Presidência.
Busca, recomendação, publicidade e inteligência artificial apresentaram problemas diferentes ao longo da campanha.
E parte das informações necessárias para determinar exatamente como esses sistemas produziram esses resultados está dentro da própria infraestrutura da Meta.
A nove dias do segundo turno, a discussão passa agora pela capacidade da empresa de explicar tecnicamente o que aconteceu, e pela fiscalização do TSE sobre sistemas privados que influenciam a forma como milhões de brasileiros recebem conteúdo político.



