Daniel Vorcaro não tratava Frederic Kachar apenas como um executivo de uma empresa na qual anunciava. As mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-controlador do Banco Master mostram um canal direto usado para falar de reportagens, reclamar de jornalistas, pedir exposição para pessoas e empresas próximas e, ao mesmo tempo, negociar publicidade e patrocínios.
Kachar ocupou posições de comando na Editora Globo e no Sistema Globo de Rádio e, quando foi desligado nesta quinta-feira (15), era diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio. Sob sua estrutura estavam operações ligadas a O Globo, Extra, Valor Econômico, revistas da Editora Globo e rádios como a CBN. A relação documentada com Vorcaro se estende de outubro de 2023 a julho de 2025.
O material mostra algo mais complexo do que uma simples fonte reclamando de uma reportagem. Vorcaro aparecia simultaneamente como personagem do noticiário, anunciante relevante dos veículos e amigo pessoal do executivo.
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Em uma das conversas, o próprio banqueiro descreveu a relação como:
“amizade que supera negócios”
Horas depois de o conteúdo ganhar repercussão, o Grupo Globo anunciou a demissão de Kachar após 29 anos na empresa e afirmou que as mensagens revelavam uma relação inadequada do executivo com um anunciante.
Um pedido de exposição para a então namorada
Um dos episódios mais claros ocorreu em outubro de 2024.
Vorcaro procurou Kachar para pedir ajuda na divulgação da Happy Aging, empresa de Martha Graeff, então sua namorada. Além de mídia para o lançamento, o banqueiro sugeriu que Kachar tentasse conseguir uma capa da Vogue Brasil para ela.
Kachar respondeu que uma capa da Vogue exigia um processo mais longo, mas disse que buscaria espaço para Martha em outras publicações e informou que pautaria Vogue, Marie Claire e Ela.
Dias depois, conteúdos sobre Martha e a Happy Aging apareceram nos veículos. Kachar encaminhou os links diretamente a Vorcaro. Depois que o banqueiro elogiou as matérias, o executivo respondeu:
“Depois me diz se faltou algo.”
A conversa continuou. Kachar voltou a falar sobre uma futura capa na Ela ou na Marie Claire, enquanto Vorcaro dizia que a exposição recebida havia sido boa.
O episódio chama atenção não apenas pelas publicações. A relação comercial entre Vorcaro e os veículos do grupo aparecia nas mesmas conversas.
Publicidade e espaço na mídia circulavam no mesmo canal
O Banco Master era anunciante.
Segundo mensagens e tabelas divulgadas, o banco patrocinou o Baile da Vogue de 2024 por R$ 825 mil e um camarote da editora no Carnaval de 2023 por R$ 1,6 milhão.
No ciclo seguinte, Kachar discutiu com Vorcaro valores de R$ 500 mil ligados à Vogue e R$ 800 mil para o camarote, utilizando marcas relacionadas ao círculo empresarial do banqueiro.
Outro período mostra uma negociação comercial especialmente intensa. Kachar procurou Vorcaro dezenas de vezes nos dias anteriores a um Baile da Vogue e, em uma das propostas, ofereceu como bonificação branded content para Glamour e Vogue. Ao final, Vorcaro acertou R$ 1,3 milhão em dois eventos.
Branded content é publicidade produzida em formato de conteúdo.
A relevância, neste caso, está em outra parte: negociação comercial, pedidos por exposição e discussões sobre conteúdos jornalísticos aparecem dentro da mesma relação pessoal entre os dois.
Em dezembro, essa aproximação reaparece de forma especialmente direta. Ao discutir uma ação da Happy Aging, Kachar falou sobre patrocínio com os veículos do grupo e, logo depois, relacionou a iniciativa à repercussão na Vogue.
“Quer que eu peça pra corrigir?”
Outra conversa mostra a velocidade do acesso de Vorcaro ao executivo.
Em 31 de maio de 2024, uma reportagem do G1 informou que o Banco Master havia entrado no setor de supermercados. Vorcaro disse a Kachar que a informação estava errada.
Kachar perguntou:
“Quer que eu peça pra corrigir?”
Vorcaro respondeu:
“Deve!”
Vinte e três minutos depois do primeiro alerta, a reportagem foi atualizada. O trecho que atribuía ao Master a compra da operação foi retirado, e o texto passou a explicar o papel de uma gestora na operação.
Vorcaro então respondeu que havia ficado correto.
Master, BRB e o “já reclamei”
A relação fica mais sensível quando as conversas passam para a cobertura da operação envolvendo Banco Master e BRB.
Após uma análise do Valor Econômico sobre o negócio entre as instituições, Vorcaro reclamou do conteúdo e do tom adotado. O banqueiro dizia que outros veículos haviam tratado a operação de outra maneira e demonstrava irritação com a cobertura.
Kachar respondeu que concordava com Vorcaro em um ponto: uma análise sobre o acordo não deveria ser feita sem apresentar também a visão do banqueiro.
E acrescentou:
“E já reclamei.”
Pouco mais de duas horas depois, Kachar voltou à conversa para informar que o jornalista responsável havia incluído declarações de Vorcaro no texto e perguntou se poderiam conversar no dia seguinte.
Aqui, a sequência é importante: Vorcaro reclama de uma análise; o executivo diz ter levado a reclamação adiante; posteriormente, avisa ao próprio Vorcaro que declarações dele foram acrescentadas.
Malu Gaspar virou alvo recorrente das reclamações
A colunista Malu Gaspar aparece repetidamente nas conversas.
Em abril de 2025, Vorcaro reclamou de uma publicação sobre gestores ligados ao Master, dizendo que o tratamento diminuía o jornalismo da Globo e que se sentia impotente diante de uma:
“chuva de ataques”
Kachar respondeu que entendia a crítica, classificou aspectos do estilo da jornalista como cansativos e desnecessários e afirmou:
“Vou falar com ela.”
Em outro momento, Vorcaro chegou a associar uma reclamação sobre cobertura à possibilidade de abortar sua participação em um evento do Valor.
A conversa é relevante justamente porque pressão comercial e descontentamento editorial aparecem lado a lado.
As mensagens também mostram divergências entre os dois em algumas reclamações. Isso não elimina o ponto central revelado pelo conjunto: Vorcaro tinha acesso contínuo ao executivo para discutir o trabalho de jornalistas que cobriam seus negócios.
A relação ia além de publicidade e jornalismo
A proximidade registrada no celular de Vorcaro também era pessoal.
Mensagens divulgadas nesta quinta mostram convites para festas privadas e conversas em tom de intimidade. Em uma delas, Vorcaro convida Kachar para uma festa descrita como reservada e sem celulares; em mensagens posteriores, o executivo agradece pelo convite.
Outros diálogos registram termos como:
“guerra na Ucrânia”
e
“ataque soviético”
em referência a festas com mulheres estrangeiras.
Separadamente, a Polícia Federal investiga uma estrutura ligada a Vorcaro que, segundo informações publicadas sobre o caso, envolvia prostituição e recrutamento de mulheres estrangeiras, inclusive ucranianas.
As mensagens envolvendo Kachar mostram conhecimento e interesse nos encontros privados.
O contraste com as próprias regras da Globo
A relevância institucional das mensagens aumenta quando elas são comparadas com as normas que o próprio Grupo Globo declara seguir.
Nos Princípios Editoriais publicados pela empresa, o grupo afirma que seus veículos devem ser independentes de grupos econômicos e que decisões editoriais envolvendo anunciantes devem seguir os mesmos critérios aplicados a empresas que não anunciam.
O documento também estabelece que relações de amizade entre jornalistas e personagens do noticiário podem gerar conflitos e devem ser comunicadas internamente para que sejam administradas.
O material envolvendo Vorcaro coloca justamente essas fronteiras sob escrutínio: um anunciante importante mantinha relação pessoal próxima com um executivo de alto escalão, discutia negócios publicitários com ele e utilizava o mesmo canal para fazer pedidos de exposição e reclamar de jornalistas e matérias.
Nesta quinta-feira, a própria empresa classificou a relação como inadequada e anunciou o desligamento de Frederic Kachar.
O caso é maior do que a Globo
As mensagens envolvendo Kachar não aparecem isoladas.
Nesta mesma quinta-feira, outras reportagens baseadas no celular de Vorcaro descreveram relações do banqueiro com veículos como Metrópoles, Brazil Journal, IstoÉ, PlatôBR, DCM e CartaCapital.
Em algumas dessas frentes, o material divulgado inclui textos enviados antes da publicação, pedidos de alteração e discussões sobre investimentos ou publicidade.
Esses episódios têm circunstâncias próprias e não devem ser automaticamente transferidos para a relação com a Globo.



