A mansão de Flávio Bolsonaro (PL), no Lago Sul, em Brasília, passou a reunir duas frentes de questionamento sobre o patrimônio do senador e candidato à Presidência. Enquanto a Polícia Federal investiga as condições do financiamento concedido pelo Banco de Brasília (BRB) para a compra da residência, uma reportagem publicada nesta terça-feira (20) revelou que o escritório de advocacia registrado no mesmo endereço emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre 2023 e 2026.

O levantamento, publicado pelo UOL, analisou 62 notas fiscais da sociedade de advocacia de Flávio. Parte dos documentos indica contas bancárias no BRB para recebimento de pagamentos, enquanto outros apontam uma conta no Santander.

A revelação acrescenta novas informações às discussões sobre as atividades profissionais e financeiras do senador, que começaram antes da campanha presidencial e ganharam relevância com as investigações envolvendo o Banco Master e as operações do BRB.

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Os dois conjuntos de informações, entretanto, tratam de operações diferentes: o financiamento usado para comprar a casa e os serviços cobrados pelo escritório. Não há comprovação de que as receitas identificadas nas notas fiscais tenham sido utilizadas para quitar o empréstimo imobiliário.

A mansão comprada com financiamento de 30 anos

Flávio Bolsonaro e sua esposa, Fernanda, compraram a residência em janeiro de 2021, por aproximadamente R$ 5,97 milhões.

Localizada em uma área valorizada do Lago Sul, a propriedade tem cerca de 1.100 metros quadrados de área construída e conta com piscina, academia e outras instalações de lazer.

Para adquirir o imóvel, o casal contratou um financiamento de aproximadamente R$ 3,1 milhões junto ao Banco de Brasília, instituição financeira controlada pelo governo do Distrito Federal.

O contrato previa o pagamento em 360 parcelas, distribuídas ao longo de 30 anos.

A dívida, entretanto, foi quitada em 2024, cerca de três anos depois da compra. A quitação antecipada foi revelada pelo Estadão e confirmada pelo Metrópoles naquele ano.

O financiamento já havia provocado questionamentos por suas condições. A taxa contratada foi de 3,71% ao ano, acrescida da correção prevista no contrato, enquanto a média informada para operações semelhantes do BRB naquele período era de aproximadamente 4,85%.

Essa diferença motivou questionamentos sobre os critérios utilizados pelo banco para conceder o empréstimo.

Por que a Polícia Federal voltou a examinar o financiamento?

A nova frente de investigação veio a público em 2 de outubro, quando a jornalista Bela Megale revelou que a Polícia Federal passou a analisar as condições da operação de crédito concedida a Flávio.

A apuração ocorre no contexto do inquérito que investiga as relações entre o BRB e o Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro.

O ponto de conexão é o próprio Banco de Brasília. O financiamento da mansão foi contratado durante a gestão de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB posteriormente preso no âmbito das investigações sobre operações financeiras envolvendo o Master.

A investigação procura esclarecer se as condições concedidas ao senador respeitaram os critérios de crédito aplicáveis.

O questionamento não é inteiramente novo. A deputada Erika Kokay (PT-DF) já havia ingressado com uma ação popular para contestar o financiamento.

Em 2022, uma decisão judicial rejeitou o pedido de anulação do empréstimo. Após novos trâmites, a 4ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios manteve, em setembro de 2025, a improcedência da ação, considerando que a operação havia observado as regras internas da instituição.

A apuração da PF divulgada em outubro de 2026 é posterior a essas decisões e ainda não apresentou conclusão pública sobre eventual irregularidade na concessão do crédito.

O escritório de advocacia registrado na mansão

A nova revelação desta terça-feira diz respeito à Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia.

Segundo o levantamento dos jornalistas Artur Rodrigues e Fabio Serapião, do UOL, o escritório emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que Flávio exercia mandato no Senado.

A sociedade foi aberta em abril de 2021, poucos meses depois da aquisição da mansão. Seu endereço cadastrado é a própria residência do senador no Lago Sul.

Flávio é o único titular da empresa, que, segundo a reportagem, não possui outros funcionários registrados.

Os documentos analisados descrevem grande parte dos serviços de maneira genérica, como assessoria jurídica. Esse tipo de atividade pode envolver consultorias, pareceres e orientações que não necessariamente resultam em processos judiciais.

O levantamento identificou apenas um processo judicial diretamente relacionado aos clientes mencionados nas notas fiscais examinadas.

Os R$ 13,7 milhões correspondem ao valor das notas identificadas, não ao lucro pessoal do senador. A documentação consultada pela reportagem também não permite concluir, isoladamente, quanto desse montante foi efetivamente recebido e permaneceu com a sociedade.

Quem contratou os serviços?

Entre os maiores clientes identificados pelo UOL está o escritório Nilo & Almeida Advogados Associados, ligado ao advogado Edvaldo Nilo de Almeida.

A sociedade aparece em duas notas fiscais de R$ 2 milhões cada, emitidas em agosto e outubro de 2025. Os documentos indicavam uma conta no BRB para pagamento.

Edvaldo Nilo foi nomeado por Jair Bolsonaro para a Comissão de Ética Pública da Presidência em 2022. Posteriormente, tornou-se integrante do Conselho Nacional do Ministério Público.

Questionado pelo UOL, o advogado afirmou que os pagamentos decorreram de serviços jurídicos prestados conjuntamente pelos dois escritórios a clientes privados, sem envolvimento de recursos públicos.

Outro nome identificado no levantamento é a Simas Industrial de Alimentos, fabricante de doces que aparece em notas fiscais somando R$ 3,3 milhões.

A reportagem também aponta cobranças a outras sociedades de advocacia e empresários.

O exercício da advocacia por parlamentares é permitido, desde que sejam respeitadas as restrições legais, incluindo impedimentos para atuar em determinadas causas envolvendo o poder público.

O valor dos contratos, por si só, não demonstra irregularidade. A investigação financeira busca esclarecer movimentações e possíveis relações que vão além da existência das notas fiscais.

O que o BRB e o Banco Master têm a ver com essa história?

Há duas relações distintas envolvendo o BRB.

A primeira é o empréstimo imobiliário concedido em 2021, cuja aprovação voltou a ser analisada no contexto das investigações sobre o banco.

A segunda aparece na documentação do escritório de advocacia: algumas notas fiscais identificadas pelo UOL indicam uma conta da sociedade no BRB para receber pagamentos.

A existência dessas duas operações na mesma instituição financeira não comprova que o financiamento imobiliário tenha sido pago com os serviços advocatícios ou que os recursos tenham origem no Banco Master.

O interesse dos investigadores está em esclarecer operações financeiras específicas e verificar se houve irregularidades.

O Master, por sua vez, já aparece em outra investigação que envolve Flávio Bolsonaro: o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.

O senador reconheceu que procurou Daniel Vorcaro em busca de patrocínio para a produção, mas negou ter recebido vantagens pessoais ou praticado irregularidades.

O Trendahora acompanha essa investigação desde a divulgação do áudio envolvendo Flávio e Vorcaro e também noticiou a viagem do senador em um jatinho ligado ao ex-banqueiro.

O que Flávio Bolsonaro diz?

Sobre a compra e o financiamento da mansão, Flávio sustenta que a operação foi legal e que possuía renda e patrimônio suficientes para realizar o negócio.

O senador já atribuiu os recursos utilizados na aquisição e na quitação à sua atividade profissional, à venda de um imóvel anterior e a rendimentos relacionados à participação que teve em uma franquia de chocolates.

A operação também recebeu decisão judicial favorável em ação popular que questionava sua regularidade.

Quanto à nova reportagem sobre as notas fiscais, o UOL informou que procurou a campanha de Flávio Bolsonaro, mas não recebeu resposta até a atualização publicada nesta terça-feira.

Clientes citados na investigação jornalística afirmaram que contrataram serviços jurídicos legítimos e negaram o envolvimento de recursos públicos em determinados contratos.

A discussão patrimonial chega à reta final da eleição

A revelação ocorre em um momento no qual o patrimônio e as relações financeiras dos candidatos ganharam destaque no segundo turno presidencial.

No debate da Band, realizado em 18 de outubro, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir seus sigilos bancário e telefônico, além dos de seus familiares.

Nesta terça-feira, a campanha do presidente protocolou no Tribunal Superior Eleitoral uma proposta de abertura de dados bancários, fiscais e telefônicos dos últimos oito anos, condicionada a uma autorização equivalente do adversário.

Integrantes da campanha de Lula passaram a utilizar as informações sobre o escritório de advocacia como argumento para reforçar a cobrança por transparência. Flávio havia afirmado anteriormente não ter nada a esconder, mas não confirmou a aceitação da proposta.

O novo levantamento sobre o escritório, somado à apuração do financiamento pelo BRB, amplia os questionamentos públicos sobre as operações financeiras associadas ao senador.