O Brasil revogou nesta quarta-feira, 22 de abril, as credenciais de um oficial de imigração dos Estados Unidos que atuava em Brasília, em resposta à decisão de Washington de retirar as credenciais do adido da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, delegado brasileiro baseado em Miami. Segundo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, a medida brasileira não significa expulsão do agente americano, mas a interrupção de suas funções oficiais no país.

A reação foi confirmada também pelo Itamaraty, que informou ter convocado um representante da embaixada americana para comunicar a interrupção imediata das atividades do oficial, com base no princípio da reciprocidade. Nem a Polícia Federal nem o Ministério das Relações Exteriores divulgaram o nome do agente atingido pela decisão brasileira.

A medida brasileira e a resposta dos EUA

O episódio ocorre dois dias depois de os Estados Unidos determinarem a saída de Marcelo Ivo de Carvalho do território americano. O delegado atuava como elo entre a Polícia Federal brasileira e a área de imigração dos EUA. Na ocasião, a embaixada americana confirmou que ele era o alvo da medida anunciada em publicação do Departamento de Estado nas redes sociais.

Do lado americano, a justificativa pública para a retirada do adido da PF foi a acusação de que autoridades brasileiras tentariam usar o sistema migratório dos EUA para contornar pedidos formais de extradição e estender, em território americano, o que Washington chamou de perseguição política. A mensagem não citava Ramagem nominalmente, mas o contexto do caso já era apontado como pano de fundo do impasse.

O caso Ramagem no centro da crise

A crise atual é desdobramento direto da prisão de Alexandre Ramagem nos EUA, caso que recolocou no centro da relação entre os dois países o pedido brasileiro de extradição e o embate em torno da atuação das autoridades migratórias americanas. No Trendahora, esse foi o ponto de partida da cobertura do caso, quando a detenção de Ramagem passou a ser tratada como um episódio com repercussão além do campo judicial.

Ramagem, ex-deputado federal e ex-chefe da Abin, havia sido detido pelo ICE na semana passada, depois de deixar o Brasil após condenação no processo da trama golpista. Ele foi liberado dois dias depois, mas o episódio abriu uma sequência de reações políticas e diplomáticas entre Brasília e Washington. Até 15 de abril, o status migratório dele ainda não estava claro, enquanto a libertação passou a alimentar novas tensões entre os dois governos.

Lula havia sinalizado reciprocidade

Na terça-feira, um dia antes da resposta formal do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo poderia agir de forma recíproca caso entendesse que houve abuso por parte das autoridades americanas no tratamento dado ao representante da Polícia Federal. A declaração serviu como sinal político prévio da medida adotada nesta quarta.

Com isso, o movimento brasileiro não surgiu de forma isolada. A fala de Lula já indicava que o Planalto tratava a decisão americana como um gesto que poderia exigir resposta no mesmo nível institucional.

Crise migra do campo migratório para o diplomático

Com a revogação das credenciais do oficial americano em Brasília, o caso deixa de ser apenas um episódio ligado à situação de Ramagem e passa a configurar uma nova frente de atrito diplomático entre os governos de Brasil e Estados Unidos. O fato novo desta quarta é justamente esse: a crise agora entrou oficialmente no terreno da reciprocidade institucional.