A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados adiou para quarta-feira (10) a votação da PEC que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. A proposta foi discutida nesta terça-feira (9), mas a análise foi suspensa após o início da Ordem do Dia no Plenário da Câmara.

A proposta em discussão é a PEC 32/2015, apresentada originalmente há mais de uma década, que altera a Constituição para estabelecer maioridade civil e penal aos 16 anos. O texto tramita com propostas apensadas e voltou ao centro do debate em meio à pressão por respostas mais duras na área de segurança pública.

O relator, deputado Coronel Assis (PL-MT), apresentou parecer favorável à admissibilidade da proposta. Nesta fase, a CCJ não analisa o mérito completo da medida, mas se ela pode seguir tramitando do ponto de vista constitucional.

Publicidade

Se for aprovada na CCJ, a PEC ainda terá um caminho longo: precisa passar por uma comissão especial, ser votada em dois turnos no plenário da Câmara, com apoio de ao menos 308 deputados, e depois seguir para análise do Senado. O tema ganhou peso eleitoral porque segurança pública aparece como uma das principais pautas do debate político de 2026.

Comentário do Trendahora

Gabriel Pagliaro de Paiva, Comentarista jurídico no Trendahora
Gabriel Pagliaro de Paiva

Comentarista jurídico

O debate sobre segurança pública no Brasil não é sobre prender ou não prender. Quem comete crime tem que responder por isso, ponto. O problema é que ninguém olha o que acontece depois que a porta fecha. O país tem quase 664 mil presos para uma capacidade de 458 mil vagas. Imagina tentar fazer um show no Maracanã com quase o triplo da lotação. Não é desconforto, é colapso total.

E colapso tem consequência. Presídio sem controle não pune, ele organiza o crime. O Estado perdeu o protagonismo dentro das prisões e quem assumiu esse vácuo foi o crime organizado, que hoje opera, recruta e comanda de dentro das grades. A violência que vemos na rua tem muito do que foi estruturado lá dentro, não o contrário.

Por isso, quando o Congresso discute reduzir a maioridade penal, a pergunta que ninguém faz é: prender em qual condição? Quase 40% dos ex-detentos voltam a cometer crimes em cinco anos, não por falta de punição, mas porque o Estado nunca retomou o controle de verdade dentro do sistema. Prender é necessário e deve acontecer. Mas enfiar mais gente num ambiente dominado por facções não é política de segurança. É só fortalecer o inimigo que se diz querer combater.

A proposta enfrenta resistência do governo federal. Em março, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania classificou a redução da maioridade penal como inconstitucional, ineficaz para enfrentar a violência e incompatível com compromissos nacionais e internacionais assumidos pelo Brasil.

A pasta também argumenta que adolescentes não são impunes no modelo atual. Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), jovens a partir de 12 anos podem responder por atos infracionais e cumprir medidas socioeducativas, incluindo internação nos casos mais graves.

O debate, porém, encontra forte apoio na opinião pública. Pesquisa Real Time Big Data divulgada em maio apontou que 90% dos entrevistados defendem a redução da maioridade penal para 16 anos. Entre eleitores de Lula, o apoio foi de 81%; entre eleitores de Flávio Bolsonaro, chegou a 96%.

A combinação entre pressão popular, ano eleitoral e crise na segurança pública ajuda a explicar a volta do tema à pauta do Congresso. Para defensores da proposta, a mudança reduziria a sensação de impunidade em crimes graves cometidos por adolescentes. Para críticos, a medida pode ampliar o encarceramento sem enfrentar a estrutura que alimenta facções e reincidência.

A discussão também ocorre em meio a um sistema prisional já pressionado. Dados oficiais mais recentes da Secretaria Nacional de Políticas Penais indicam que o Brasil tem aproximadamente 700 mil pessoas em celas físicas, além de centenas de milhares em prisão domiciliar, com ou sem monitoramento eletrônico.

Mesmo que a proposta avance na CCJ, a aprovação final antes das eleições ainda é incerta. A tramitação de uma PEC exige prazos, comissão especial, quórum elevado e negociação política entre Câmara e Senado. Por isso, a votação desta semana é apenas o primeiro movimento de uma disputa que deve continuar no centro do debate sobre segurança pública.