Um áudio atribuído a Daniel Vorcaro colocou nesta sexta-feira (9) uma acusação grave contra o presidente Lula no centro da disputa política. Horas depois, porém, começaram a surgir dúvidas que vão muito além de saber se a voz da gravação é ou não do ex-controlador do Banco Master.
A defesa do próprio Vorcaro afirmou que não confirma o conteúdo divulgado e que a “origem, autenticidade e integridade” do material não são reconhecidas. A Polícia Federal declarou que o ex-banqueiro não prestou depoimento com aquele teor e que também não entregou à instituição anexos, documentos ou informações com o conteúdo descrito. A PGR, por sua vez, afirmou que nunca houve depoimento oral de Vorcaro durante as tratativas de colaboração premiada.
Até a publicação desta matéria, também não havia sido apresentada publicamente uma perícia que estabelecesse a origem do arquivo, quando a conversa ocorreu, quem participava dela ou se a gravação divulgada corresponde à íntegra da conversa.
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A sucessão de respostas não demonstra que o áudio seja falso. Mas muda o status da acusação: o material divulgado pela Veja contém uma fala atribuída a Vorcaro, enquanto a origem da gravação, seu contexto e a acusação financeira feita nela ainda precisam ser comprovados.
O que diz o áudio
A Veja publicou nesta sexta uma gravação em que uma voz atribuída a Vorcaro afirma ter colocado dinheiro em um documentário sobre Lula dirigido por Oliver Stone.
No trecho divulgado, Vorcaro compara o projeto ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, e afirma que o dinheiro destinado à produção sobre Lula teria sido pago “por fora” e de forma “errada”.
A revista afirma que o caso envolveria cerca de R$ 30 milhões em dinheiro vivo destinados ao financiamento do documentário e outros recursos pagos ao Instituto Lula. Segundo a publicação, documentos obtidos pela revista fariam parte do relato apresentado durante as tentativas de Vorcaro de fechar uma colaboração premiada.
A partir daí começam as divergências.
A própria defesa não autentica o material
No início da tarde, os advogados Sérgio Leonardo e Engels Augusto Muniz divulgaram uma nota em nome de Vorcaro.
Além de repudiar a divulgação de supostos anexos ligados a uma colaboração que nunca foi celebrada, a defesa afirmou que não confirma o conteúdo publicado e declarou não reconhecer a origem, autenticidade e integridade do material.
Os advogados também disseram que Vorcaro não prestou depoimento à Polícia Federal ou à PGR durante as negociações da colaboração premiada.
A posição formal da defesa chama atenção porque, antes dela, pessoas próximas ao ex-banqueiro haviam dito à CNN reconhecer a voz de Vorcaro na gravação.
Essas mesmas fontes, porém, disseram não saber como nem quando o áudio foi gravado. Segundo a CNN, pessoas do entorno chegaram a levantar a possibilidade de uma gravação clandestina e afirmaram que ela teria ocorrido depois da prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.
Reconhecer uma voz, portanto, não resolve as demais perguntas: quem gravou, em qual circunstância, com quem Vorcaro falava, qual era o contexto da conversa e se o arquivo divulgado está completo.
PF: material com esse teor não foi entregue
A resposta mais direta veio da Polícia Federal.
Em nota oficial publicada às 12h24, a corporação afirmou que Vorcaro não prestou depoimento com o conteúdo relatado pela Veja e acrescentou que ele tampouco entregou à PF “anexos, documentos ou informações” com aquele teor.
A PF lembrou ainda que as propostas de colaboração apresentadas pela defesa foram rejeitadas por não atenderem aos requisitos legais.
Depois da publicação da reportagem, a corporação recebeu uma notícia-crime com pedido de providências urgentes e encaminhou o caso à área técnica para adoção das medidas de polícia judiciária.
Isso cria uma diferença importante entre o que foi apresentado pela revista e o material que a PF afirma ter recebido formalmente.
PGR também diz que não houve depoimento
A Procuradoria-Geral da República também divulgou nota oficial.
Segundo a PGR, todas as negociações da proposta de colaboração de Vorcaro foram feitas pelos advogados. Não houve contato direto entre o ex-banqueiro e representantes da Procuradoria e não houve depoimento oral porque a proposta acabou rejeitada.
Um integrante da PGR ouvido reservadamente pela CNN foi além: afirmou que o áudio divulgado pela Veja não foi enviado à equipe responsável pelas negociações.
Segundo essa fonte, os relatos apresentados pelos advogados eram escritos de forma esquemática e em terceira pessoa, diferente do material divulgado nesta sexta. A fonte também manifestou desconfiança de que a gravação possa ter sido produzida depois que as negociações da colaboração fracassaram.
O documento de R$ 30 milhões também virou ponto de dúvida
As dúvidas não se limitam ao arquivo de áudio.
O UOL afirma ter analisado as três propostas de colaboração apresentadas por Vorcaro. Em uma delas, o banqueiro menciona que já havia patrocinado filmes sobre Lula e Michel Temer.
O problema é a forma como isso aparece.
Segundo o veículo, Vorcaro escreveu que esses financiamentos haviam ocorrido nos mesmos moldes do projeto sobre Bolsonaro. No áudio divulgado agora, ele faz uma distinção: chama o financiamento relacionado a Lula de irregular e apresenta o de Bolsonaro como patrocínio regular.
O documento específico com a narrativa de aproximadamente R$ 30 milhões em espécie descrito pela Veja não consta, segundo o UOL, das propostas de colaboração obtidas pelo veículo.
A Folha chegou a uma conclusão semelhante ao consultar investigadores: a menção ao filme sobre Lula que aparece na proposta de colaboração estaria dentro de um anexo relacionado a Dark Horse, no qual Vorcaro afirmava já ter patrocinado anteriormente filmes sobre Lula e Michel Temer. Integrantes da PGR ouvidos pela Folha também negaram a existência, no material conhecido por eles, do anexo de R$ 30 milhões descrito na reportagem.
Celular de Vorcaro não mostrou o pagamento
Há outra diferença importante quando a acusação é confrontada com o celular apreendido pela Polícia Federal.
O UOL afirma ter analisado mensagens extraídas do aparelho de Vorcaro que abrangem inclusive o período de produção do documentário sobre Lula.
Nelas aparecem registros relacionados ao financiamento de produções sobre Jair Bolsonaro e Michel Temer. Segundo o levantamento, porém, não foram encontrados registros de pagamento ou patrocínio ao documentário de Oliver Stone.
Os cerca de R$ 30 milhões descritos pela Veja ainda não apareceram acompanhados publicamente de comprovantes bancários, registros de saque, mensagens sobre entrega do dinheiro ou outro elemento independente capaz de confirmar a acusação.
Os produtores já negavam financiamento de Vorcaro
A acusação de que Vorcaro teria colocado dinheiro no documentário sobre Lula não surgiu nesta sexta-feira.
Em maio, depois de revelado o financiamento de Dark Horse, começaram a circular informações de que Vorcaro também teria patrocinado o filme dirigido por Oliver Stone e Rob Wilson.
Na ocasião, os produtores e diretores negaram qualquer recebimento de recursos, investimentos ou patrocínios provenientes de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas e fundos ligados a eles.
A negativa dos produtores, sozinha, também não demonstra que o pagamento não existiu. Mas é mais um elemento que precisa ser confrontado com as provas mencionadas na nova acusação.
O que a Veja afirma ter
Do outro lado dessa disputa, a Veja mantém a reportagem.
A revista afirma ter obtido o áudio e documentos relacionados ao relato e diz que a defesa de Vorcaro, durante as tratativas de colaboração, sustentava que seria possível comprovar os pagamentos por meio de mensagens, registros de retirada de dinheiro e informações sobre locais e rotas de entrega.
Esses elementos de corroboração, no entanto, não foram apresentados publicamente no material consultado pelo Trendahora até a publicação desta reportagem.
É justamente aí que está a principal questão agora.
Não basta saber de quem é a voz
O áudio pode ter a voz de Daniel Vorcaro e, ainda assim, continuar exigindo esclarecimentos.
É preciso estabelecer quando a conversa aconteceu, quem estava presente, por que foi gravada, se o trecho está completo, de onde vieram os documentos atribuídos à colaboração e, principalmente, se existem provas independentes do pagamento de R$ 30 milhões descrito na reportagem.
Até agora, defesa, PF e PGR contestaram diferentes partes da narrativa sobre como esse material teria chegado às autoridades. As propostas de colaboração conhecidas apresentam uma versão diferente sobre o patrocínio dos filmes, e as mensagens do celular analisadas pelo UOL não forneceram confirmação do pagamento.



