A compra da mineradora brasileira Serra Verde pela americana USA Rare Earth, anunciada nesta semana, veio acompanhada de um elemento que amplia o peso estratégico do negócio: um contrato de 15 anos para a produção da Fase I da operação em Goiás, com preços mínimos garantidos para minerais usados em setores como veículos elétricos, turbinas eólicas, drones e defesa. A transação foi anunciada em US$ 2,8 bilhões e ainda depende de aprovações para ser concluída no 3º trimestre de 2026.

Pelo desenho divulgado pelas empresas, a Serra Verde firmou o acordo de fornecimento com uma estrutura de propósito específico capitalizada por agências do governo dos Estados Unidos e por fontes privadas. O contrato cobre a produção da primeira fase da mina de Pela Ema, em Goiás, com piso de preço para terras raras magnéticas. Segundo a Reuters, o valor de referência foi fixado em US$ 110 por quilo para NdPr, além de US$ 575 por quilo para disprósio e US$ 2.050 por quilo para térbio. Se os preços de mercado ficarem acima desses patamares, a companhia e a estrutura compradora dividirão o ganho adicional.

O acordo dá previsibilidade de receita a um ativo considerado raro fora da Ásia. A própria Serra Verde afirma que a combinação com a USA Rare Earth busca montar uma cadeia integrada de terras raras entre Brasil, Estados Unidos e aliados, incluindo mineração, processamento e fabricação de ímãs. A empresa também diz que a operação brasileira seguirá sendo expandida sob a gestão atual, com Ricardo Grossi permanecendo à frente das atividades no país.

O contexto geopolítico ajuda a explicar por que a mina em Goiás passou a ser tratada como peça estratégica. A Reuters lembra que a China responde por cerca de 90% do processamento global de terras raras, enquanto Estados Unidos, Europa e outros países ocidentais aceleram esforços para construir cadeias próprias para insumos usados na transição energética, na eletrônica e em aplicações militares. A mina da Serra Verde iniciou produção comercial no começo de 2024 e a expectativa informada à Reuters é atingir cerca de 6.400 a 6.500 toneladas anuais de óxidos totais de terras raras até 2027.

Para o Brasil, a operação recoloca Goiás no centro de uma disputa internacional por minerais críticos. O relatório Mineral Commodity Summaries 2026, do USGS, estima que o país tenha 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras. Isso não significa que o Brasil esteja automaticamente capturando a parte mais valiosa da cadeia, mas reforça que o país passou a ocupar posição relevante em um mercado que mistura mineração, tecnologia industrial e segurança econômica.

A aproximação entre Serra Verde e Washington, aliás, já vinha de antes. Em fevereiro, a Reuters informou que a companhia brasileira fechou um pacote de US$ 565 milhões com a U.S. International Development Finance Corporation para refinanciar dívidas em condições mais favoráveis e expandir a produção. Na prática, a compra anunciada agora amplia uma relação que já vinha sendo construída em torno de minerais considerados estratégicos pelos Estados Unidos.