Os Estados Unidos afirmaram que o acordo de terras raras com a China continua em vigor antes da reunião entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, em uma agenda que deve misturar comércio, tecnologia, Irã, Taiwan, armas nucleares e inteligência artificial.

Segundo funcionários americanos ouvidos pela Reuters, Trump deve chegar a Pequim nesta semana para dois dias de conversas com Xi. A visita será o primeiro encontro presencial entre os dois líderes em mais de seis meses e ocorre em meio a uma tentativa de estabilizar a relação entre as duas maiores economias do mundo.

O ponto mais sensível para a indústria global é a possível extensão da trégua sobre minerais críticos. Um funcionário americano disse que o acordo “ainda não expira” e afirmou estar confiante de que eventual prorrogação será anunciada no momento apropriado.

Por que as terras raras viraram ponto central

As terras raras são usadas em cadeias de alta tecnologia, energia limpa, equipamentos militares, carros elétricos, turbinas eólicas, satélites e componentes eletrônicos. Por isso, o tema deixou de ser apenas mineral ou comercial e passou a ser tratado como assunto de segurança nacional.

A China ocupa posição dominante na produção, separação e refino desses materiais. Isso dá a Pequim uma ferramenta de pressão em negociações com Washington, especialmente em momentos de tensão tarifária, disputa por semicondutores e restrições tecnológicas.

A Casa Branca já havia apresentado o acordo firmado em 2025 como uma forma de reduzir controles chineses sobre terras raras e outros minerais críticos. Agora, a discussão volta ao centro da pauta porque Washington busca garantir fluxo desses insumos enquanto tenta preservar espaço para suas empresas de tecnologia, defesa e indústria avançada.

Reunião também deve envolver Boeing, agricultura e energia

Além das terras raras, os dois países devem discutir fóruns para facilitar comércio e investimento. A China também pode anunciar compras ligadas a aviões Boeing, produtos agrícolas americanos e energia.

A viagem ganhou peso empresarial. Executivos como Elon Musk, Tim Cook, Larry Culp, da GE Aerospace, e Kelly Ortberg, da Boeing, devem acompanhar Trump, segundo a Reuters. Também estão previstos nomes ligados a Meta, BlackRock, Blackstone, Micron, Mastercard, Qualcomm e Visa.

A presença desse grupo reforça que a reunião não será apenas diplomática. Ela também funciona como tentativa de destravar negócios e reduzir incertezas para grandes empresas expostas à disputa entre Washington e Pequim.

Para o Brasil, o impacto não é imediato no preço ao consumidor, mas é estratégico.

O país tem uma das maiores bases de recursos de terras raras do mundo, segundo o Serviço Geológico do Brasil. O problema é transformar potencial geológico em cadeia produtiva, com pesquisa, lavra, beneficiamento, separação, refino e produção de insumos de maior valor agregado.

Esse debate avançou no Congresso. A Câmara dos Deputados aprovou em 6 de maio o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O texto prevê incentivos a projetos de processamento e transformação no país e agora segue para o Senado.

A discussão brasileira se conecta diretamente ao cenário internacional. Se EUA, China, Europa e Austrália tratam minerais críticos como tema de segurança econômica, o Brasil passa a ter oportunidade e pressão para decidir se será apenas fornecedor de minério bruto ou se tentará ocupar etapas mais sofisticadas da cadeia.

Uma disputa que vai além do comércio

O encontro entre Trump e Xi também deve passar por temas mais sensíveis, como Irã, Taiwan, armas nucleares e inteligência artificial. Mas o debate sobre terras raras resume bem o novo estágio da disputa entre as potências.

A rivalidade não está restrita a tarifas. Ela envolve quem controla os materiais, as fábricas, os chips, os equipamentos de defesa, os carros elétricos e a infraestrutura tecnológica das próximas décadas.

Para o Brasil, acompanhar essa disputa é mais do que observar uma briga entre Washington e Pequim. É entender onde o país pode se posicionar em uma cadeia global cada vez mais estratégica.