Donald Trump ameaçou nesta sexta-feira (24) impor novas tarifas ao México por causa de um surto associado à alface importada e ao Canadá pela fumaça dos incêndios florestais que alcança os Estados Unidos.
A declaração foi feita no Salão Oval, durante perguntas de jornalistas. Questionado sobre quando seria seguro voltar a consumir alface, o presidente respondeu que seu governo aplicaria uma “grande tarifa” ao México.
Logo depois, Trump acrescentou que também pretende impor uma “grande tarifa” ao Canadá por causa da fumaça. O presidente não informou alíquota, produtos atingidos, data de entrada em vigor ou base legal para nenhuma das duas cobranças.
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As declarações representam, portanto, ameaças de novas medidas comerciais. Até a publicação, não havia ato oficial específico formalizando tarifas relacionadas à alface ou à fumaça.
Por que Trump citou a alface
A fala sobre o México ocorre durante a investigação de um surto de ciclosporíase, infecção intestinal causada pelo parasita Cyclospora cayetanensis.
Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC, ao menos 1.947 pessoas foram infectadas, 98 precisaram ser hospitalizadas e nenhuma morte foi registrada. Os casos estão distribuídos por nove estados americanos.
Em 17 de julho, a Taylor Farms iniciou o recolhimento de toda a alface-americana proveniente do centro do México. Os produtos recolhidos foram distribuídos a consumidores, restaurantes e varejistas de pelo menos 27 estados.
A investigação da FDA, agência americana responsável por alimentos e medicamentos, identificou convergência para a Taylor Farms de Mexico no rastreamento da alface servida em locais frequentados por pessoas que adoeceram. Parte dos casos envolve clientes de unidades do Taco Bell.
O vínculo, porém, não foi confirmado por uma amostra positiva do produto. A FDA revisou um resultado inicialmente divulgado e concluiu que se tratava de um falso positivo. A agência informou que os dados epidemiológicos e de rastreamento continuam sustentando o recolhimento.
Autoridades mexicanas também analisaram amostras de alface e água da fábrica da empresa em Guanajuato. A Secretaria de Saúde do México informou que os exames realizados não detectaram Cyclospora.
A diferença não significa que o surto esteja descartado. Os Estados Unidos baseiam sua investigação no conjunto de casos e no rastreamento da cadeia de fornecimento, enquanto os testes laboratoriais divulgados até agora não encontraram o parasita nas amostras examinadas.
Por que Trump citou a fumaça
A referência ao Canadá está ligada aos incêndios florestais e ao deslocamento da fumaça para o território americano.
O AirNow, sistema oficial de monitoramento da qualidade do ar dos Estados Unidos, informou em 21 de julho que a fumaça estava afetando vários estados e recomendou o acompanhamento das condições locais.
Partículas produzidas por incêndios podem percorrer milhares de quilômetros, dependendo dos ventos e das condições atmosféricas. Isso permite que focos registrados no Canadá prejudiquem a qualidade do ar muito além das áreas diretamente atingidas pelo fogo.
Trump já vinha responsabilizando o governo canadense pela fumaça que cruza a fronteira. Na nova declaração, transformou a reclamação ambiental em ameaça de punição comercial, mas não explicou como a tarifa seria calculada nem quais mercadorias seriam alcançadas.
Canadá já enfrenta outra tarifa de 50%
A ameaça relacionada à fumaça não deve ser confundida com as tarifas de 50% anunciadas por Trump em 20 de julho contra determinados produtos canadenses.
As medidas já formalizadas atingem grupos de mercadorias que incluem vinho, tacos de hóquei e cimento. A justificativa apresentada pela Casa Branca envolve suposto tratamento discriminatório contra produtos e empresas americanas nos setores automotivo, de bebidas alcoólicas e de laticínios.
Energia, potássio, peixes, minerais críticos e mercadorias já submetidas a outras tarifas ficaram entre as exceções divulgadas pelo governo americano.
Tarifas além das disputas comerciais tradicionais
As duas novas ameaças ampliam o uso das tarifas por Trump para além de conflitos convencionais sobre importações, subsídios ou acesso a mercados.
No caso do México, o presidente associou a cobrança a uma investigação sanitária ainda em andamento. No caso do Canadá, relacionou a medida à poluição transfronteiriça provocada pelos incêndios.
Sem atos oficiais, o efeito imediato das falas é aumentar a incerteza política e diplomática entre os três países que integram o acordo comercial USMCA.
Para o Brasil, não há impacto comercial direto anunciado nesse episódio. A declaração, no entanto, reforça o padrão de Trump de apresentar tarifas como instrumento de pressão em conflitos que envolvem saúde pública, meio ambiente, regulação e relações diplomáticas.


