A Colômbia encerrou, apenas seis dias antes do terremoto de magnitude 7,4 desta segunda-feira (10), uma consulta pública sobre um projeto de decreto destinado a adotar formalmente o Modelo Nacional de Ameaça Sísmica do país e implementar seu sistema de consulta.
A Presidência colombiana abriu o processo em 21 de julho e estabeleceu 4 de agosto como último dia para o recebimento de comentários da população e de grupos interessados. O projeto era conduzido pela Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres.
Em 10 de agosto, um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia, com epicentro na região de San José del Palmar, em Chocó. O desastre deixou mais de uma centena de mortos e provocou destruição em diferentes cidades. O Trendahora mantém uma matéria atualizada com o balanço geral do terremoto.
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A proximidade das datas não significa que o governo soubesse que um terremoto estava prestes a acontecer. Na verdade, o próprio modelo deixa claro um dos limites da ciência atual: ele não prevê a data de um terremoto.
Modelo não prevê quando a terra vai tremer
O Modelo Nacional de Ameaça Sísmica foi publicado em 2020 pelo Serviço Geológico Colombiano, em colaboração com a Fundação Global Earthquake Model. Portanto, a consulta encerrada em agosto não tratava da criação do sistema do zero, mas de um projeto de decreto para sua adoção e implementação do mecanismo de consulta.
Segundo o SGC, o modelo trabalha com probabilidades. Ele estima a intensidade que futuros terremotos podem atingir em diferentes partes do território e permite avaliar quais efeitos podem ocorrer sobre pessoas, construções e o ambiente.
Em outras palavras, a ferramenta não responde “quando haverá um terremoto?”. Ela procura responder perguntas como “onde movimentos fortes são mais prováveis ao longo dos próximos anos?” e “que intensidade deve ser considerada ao planejar uma cidade ou infraestrutura?”.
O sistema oficial permite gerar mapas e estimativas para diferentes períodos e locais do país. Os resultados são voltados ao conhecimento e à redução do risco e à preparação para grandes desastres.
SGC havia explicado o modelo semanas antes
O momento chama ainda mais atenção porque o Serviço Geológico Colombiano publicou, em 17 de julho, uma apresentação específica sobre o Modelo Nacional de Ameaça Sísmica.
O órgão explicou que seus especialistas combinam três grandes grupos de informação: o histórico dos terremotos registrados no país, as falhas geológicas capazes de produzir grandes abalos e dados sobre a estrutura profunda do território colombiano.
O SGC também apontou o litoral do Pacífico entre as áreas colombianas onde são esperados movimentos mais intensos ao longo dos próximos 50 anos. O órgão relaciona a elevada atividade sísmica da região à interação entre as placas de Nazca e Sul-Americana.
Isso não significa que o modelo tenha previsto o terremoto de 10 de agosto. A informação descreve uma ameaça regional calculada a partir de probabilidades e do histórico geológico, sem indicar dia, hora ou local exato de um futuro evento.
Para que serve, então, um mapa de ameaça?
A utilidade aparece principalmente antes de um terremoto existir como emergência.
O próprio sistema do SGC afirma que as estimativas podem servir de base para decisões sobre ordenamento territorial, planejamento urbano, construção de infraestrutura, proteção financeira e preparação para resposta a desastres.
Uma área com ameaça maior, por exemplo, pode exigir atenção diferente na hora de decidir onde instalar infraestrutura crítica ou de estudar como uma cidade deve se preparar para um grande terremoto.
O modelo, entretanto, também tem limites. O SGC ressalta que seus resultados não substituem as regras obrigatórias de projeto de construções resistentes a terremotos nem estudos específicos realizados para uma obra.
Por isso, a existência de um mapa nacional de ameaça e a segurança efetiva de cada edifício são questões relacionadas, mas diferentes.
Projeto ainda aparece como proposta
Há ainda uma distinção importante sobre o estágio da medida.
A página oficial da Presidência consultada pelo Trendahora registra o documento como “Projeto de Decreto” e informa que a consulta terminou em 4 de agosto. A relação oficial de projetos normativos de 2026 mantém o texto nessa mesma categoria.
Até a apuração desta matéria, não foi localizado nos registros oficiais consultados um decreto posterior já assinado adotando a medida.
O terremoto, portanto, ocorreu entre o fim da consulta pública e a eventual conclusão do processo normativo.
Esse intervalo dá ao documento uma relevância que não tinha quando foi colocado em consulta: seis dias depois do encerramento das contribuições, o país enfrentava o terremoto mais forte registrado em seu território neste século e começava a medir os danos em cidades próximas ao epicentro.
Destruição perto do epicentro
Um dos casos mais graves apareceu em El Cairo, no departamento de Valle del Cauca, onde autoridades estimaram que cerca de 80% da cidade tenha sido danificada.
O município fica próximo da região do epicentro e virou um dos exemplos mais claros da dimensão local do desastre.



