A Bolívia reforçou as operações de segurança na fronteira com o Brasil após uma sequência de assassinatos no departamento de Santa Cruz. Imagens divulgadas nesta quarta-feira (5) mostram parte de um contingente de mais de 200 policiais e militares em patrulhamento na região.

O governo boliviano atribui a escalada a uma disputa entre o Primeiro Comando da Capital, o PCC, e o Comando Vermelho, o CV, pelo controle de corredores utilizados para retirar drogas do território boliviano. A hipótese é apresentada pelas autoridades responsáveis pela investigação e ainda não representa a conclusão individual de todos os homicídios registrados.

Nove mortes em cinco dias

A mobilização ocorreu depois que nove pessoas foram mortas em menos de cinco dias nos municípios de San Matías, Yapacaní, San Ignacio de Velasco e Santa Cruz de la Sierra. As ocorrências não ficaram restritas à faixa exata da fronteira, embora San Matías tenha concentrado os episódios que provocaram a resposta imediata das autoridades.

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A sequência começou com um ataque a uma propriedade rural em San Matías, onde quatro pessoas morreram. No dia seguinte, uma equipe policial que investigava o caso foi emboscada em Ascensión de la Frontera. O subtenente Yerson Salazar Aliendres morreu e outro agente ficou ferido.

Na mesma semana, dois corpos decapitados foram encontrados em Yapacaní. Outros dois homens foram assassinados no domingo (2), um deles em Santa Cruz de la Sierra e outro em San Ignacio de Velasco. Esses casos completaram o primeiro balanço de nove mortes.

Nesta quarta-feira, um novo assassinato a tiros em Santa Cruz de la Sierra elevou para dez o número de mortes violentas contabilizadas no departamento em sete dias. Até a publicação, não havia confirmação pública de que esse décimo caso estivesse diretamente relacionado à disputa entre PCC e CV.

Governo identifica pontos críticos

O Ministério de Governo da Bolívia classificou Cobija, Guayaramerín, Puerto Suárez e San Matías como pontos críticos da fronteira. Segundo o órgão, operações de busca já estavam em andamento em San Matías, área apontada como refúgio de integrantes de organizações criminosas brasileiras.

O ministro Marco Antonio Oviedo afirmou que integrantes do PCC e do Comando Vermelho passaram a adquirir imóveis e estabelecer estruturas em áreas fronteiriças. O governo boliviano diz ter expulsado 17 integrantes de alto escalão de organizações brasileiras nos primeiros oito meses da atual administração, além de apreender 58 aeronaves, 370 imóveis e 283 toneladas de drogas. Os números são do próprio ministério.

Plano prevê cooperação com a Polícia Federal

A resposta foi incorporada ao chamado Plano Fronteiras Seguras. De acordo com o anúncio boliviano, a iniciativa prevê mecanismos de controle, intercâmbio de informações e operações envolvendo a Polícia Boliviana e a Polícia Federal brasileira.

O anúncio sobre o novo plano foi feito pelo governo da Bolívia. Até a publicação, a PF não havia divulgado uma nota específica detalhando a operação anunciada por Oviedo. O órgão brasileiro, porém, mantém memorando de entendimento em vigor com a Bolívia para compartilhamento de informações, capacitação e realização de ações conjuntas.

A cooperação já ocorre em operações concretas. Na segunda-feira (3), a Polícia Federal informou que trabalhou com a força antidrogas boliviana na localização e prisão de um foragido brasileiro na região da fronteira.

Impacto para o Brasil

A presença de PCC e Comando Vermelho em território boliviano amplia a dimensão internacional das duas facções. O controle de rotas, pistas clandestinas, propriedades e corredores fronteiriços permite que organizações brasileiras atuem antes mesmo de a droga entrar no país.

Para o Brasil, o reforço anunciado significa maior participação da Polícia Federal no intercâmbio de inteligência, na identificação de criminosos e na interrupção de rotas que atravessam a divisa. Também aumenta a necessidade de coordenação entre autoridades federais e forças estaduais que atuam na faixa de fronteira.

As investigações continuam para identificar os responsáveis pelos ataques e determinar quais crimes fazem parte da disputa entre as facções. A atribuição ao PCC e ao Comando Vermelho é, neste momento, a principal linha apresentada pelo governo e pela polícia da Bolívia.