Um soldado do Exército dos Estados Unidos foi acusado de usar informações sigilosas sobre uma operação militar para capturar Nicolás Maduro e lucrar mais de US$ 400 mil em apostas feitas na plataforma Polymarket, segundo o Departamento de Justiça dos EUA.

O militar foi identificado como Gannon Ken Van Dyke, integrante da ativa do Exército americano e lotado em Fort Bragg, na Carolina do Norte. De acordo com a acusação, ele participou do planejamento e da execução da operação chamada “Operation Absolute Resolve”, que tinha como objetivo capturar Maduro na Venezuela.

O caso chama atenção não apenas pelo valor envolvido, mas também pelo tipo de acusação. Autoridades americanas tratam o episódio como um exemplo de uso indevido de informação governamental confidencial em mercados de previsão, plataformas em que usuários apostam no resultado de eventos políticos, econômicos ou geopolíticos.

O que dizem os investigadores

Segundo o Departamento de Justiça, Van Dyke tinha acesso a informações sensíveis e não públicas sobre a operação militar. Mesmo assim, teria usado esse conhecimento para fazer apostas em contratos ligados à Venezuela e à possível saída de Maduro do poder.

A acusação afirma que ele criou uma conta na Polymarket em dezembro de 2025 e fez aproximadamente 13 apostas entre o fim de dezembro e janeiro. As posições teriam sido todas no sentido de que eventos envolvendo a Venezuela se confirmariam, incluindo a presença de forças dos EUA no país, a saída de Maduro do poder e uma eventual ação militar americana.

Ainda segundo os investigadores, Van Dyke apostou cerca de US$ 33 mil enquanto possuía informação sigilosa sobre a operação. Após o anúncio público da captura de Maduro, os contratos relacionados ao caso foram resolvidos de forma favorável às apostas feitas por ele, gerando lucro estimado em cerca de US$ 409 mil.

A acusação também afirma que o militar tentou esconder sua ligação com as transações depois que surgiram relatos sobre movimentações incomuns nos contratos relacionados a Maduro. Entre as medidas citadas estão a tentativa de apagar a conta na Polymarket e mudanças em contas ligadas a criptomoedas.

CFTC também abriu ação civil

Além da acusação criminal, a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA, conhecida pela sigla CFTC, abriu uma ação civil contra Van Dyke.

Segundo o órgão regulador, o militar comprou mais de 436 mil ações “Yes” no contrato “Maduro Out by January 31, 2026?”, que perguntava se Maduro deixaria o poder até 31 de janeiro de 2026. A CFTC afirma que ele teria obtido mais de US$ 404 mil em lucro com essas operações.

O órgão disse que este é o primeiro caso em que acusa insider trading envolvendo contratos de evento. A expressão insider trading é usada para descrever operações feitas com base em informação relevante que não está disponível ao público.

Para a CFTC, o caso também envolve uma questão de segurança nacional. Em comunicado, a comissão afirmou que membros do governo, incluindo militares, têm dever de confiança e confidencialidade em relação às informações a que têm acesso.

Polymarket diz ter cooperado

A Reuters informou que a Polymarket disse ter encaminhado o caso ao Departamento de Justiça e cooperado com as autoridades. A plataforma declarou que insider trading não tem lugar em seu mercado.

A Polymarket é uma das plataformas mais conhecidas de mercados de previsão, em que usuários negociam contratos baseados em respostas de “sim” ou “não” para eventos futuros. Nos últimos anos, esse tipo de mercado ganhou força em temas como eleições, decisões judiciais, conflitos internacionais e disputas políticas.

O caso envolvendo Maduro aumenta a pressão sobre esse setor porque mostra como eventos geopolíticos sensíveis podem se tornar alvo de apostas por pessoas com acesso privilegiado a informações estratégicas.

Audiência e próximos passos

A Associated Press informou que Van Dyke deve ser liberado sob fiança de US$ 250 mil após audiência na Carolina do Norte. Ele deverá comparecer à Justiça federal em Nova York, onde o processo seguirá.

As acusações criminais incluem uso ilegal de informação confidencial do governo para ganho pessoal, roubo de informação governamental não pública, fraude em commodities, fraude eletrônica e transação monetária ilegal.

Até o julgamento, Van Dyke deve ser tratado como acusado. As autoridades americanas afirmam que as penas máximas previstas em lei são apenas referenciais e que qualquer eventual sentença dependerá de decisão judicial.

Por que o caso importa

O episódio cria um precedente relevante para os Estados Unidos em uma área ainda nova: a aplicação de leis de fraude e insider trading a mercados de previsão.

Na prática, o caso coloca no centro do debate uma pergunta sensível: o que acontece quando militares, agentes públicos ou pessoas com acesso a informações sigilosas conseguem apostar em eventos políticos antes que eles se tornem públicos?

A resposta das autoridades americanas foi tratar o caso como uma violação grave de confiança. Para o Departamento de Justiça, o acesso a informações de segurança nacional não pode ser convertido em vantagem financeira privada.

O caso também amplia os desdobramentos da operação que levou à captura de Maduro e adiciona uma nova camada à crise aberta pela ação americana na Venezuela. A ofensiva já havia provocado reação dura do governo brasileiro, que classificou o episódio como uma violação grave da soberania venezuelana e cobrou resposta da comunidade internacional.