A derrota no primeiro turno não fez Renan Santos abandonar apenas uma eleição. Nos dias seguintes à votação, o presidente do Partido Missão começou a rever publicamente a forma como enxerga a própria direita brasileira. Campo político que, durante a campanha, ele tentou disputar com o bolsonarismo.
A mudança aparece quando as declarações são colocadas em sequência. Em junho, ainda como pré-candidato, Renan rejeitou a ideia de ser uma “terceira via” e afirmou que pretendia substituir Flávio Bolsonaro no espaço da direita. “Eu vou substituir o Flávio como o único candidato de direita nessa eleição”, disse ao SBT News.
Depois das urnas, o diagnóstico passou a ser outro. Renan afirmou que “não existe direita para além de Bolsonaro” e disse que já não se identifica com dois rótulos que estiveram diretamente ligados à trajetória política do MBL: a direita e o antipetismo.
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“O antipetismo se tornou algo com a qual eu não me identifico. A direita se tornou algo com a qual eu não me identifico. A direita não está procurando alternativas.”
O que mudou — e o que não mudou
A crítica de Renan ao bolsonarismo não começou depois da eleição.
Durante toda a campanha, ele atacou Flávio Bolsonaro e tentou convencer o eleitor conservador de que o Missão representava uma alternativa dentro do próprio campo da direita. Em setembro, por exemplo, já dizia que não apoiaria Flávio em um eventual segundo turno.
A mudança está em outro ponto: antes, Renan queria disputar esse eleitor; depois do resultado, passou a questionar se essa disputa ainda faz sentido.
Essa diferença ficou ainda mais clara na terça-feira (6), durante entrevista ao Estúdio i, da GloboNews. Ao analisar a força eleitoral de políticos ligados ao bolsonarismo, Renan afirmou que “a direita é entretenimento em rede social” e descreveu o novo Congresso como um “Congresso de influencers”.
Em seguida, chegou a uma conclusão que contrasta diretamente com a estratégia adotada em sua campanha:
“Hoje, disputar espaço com a direita, eu acho que é perda de tempo.”
Segundo Renan, a eleição mostrou que tentar disputar uma “tese” com esse eleitor, especialmente entre os mais velhos, deixou de ser uma estratégia eficiente. Ele defendeu, então, procurar um eleitor “mais eclético” e aberto a ideias diferentes.
Da disputa ideológica à crítica ao próprio eleitorado
A revisão também passou pelo tipo de pauta que, na avaliação de Renan, ganhou espaço dentro da direita.
Ao comentar a votação de Lucas Pavanato (PL-SP), eleito deputado federal, Renan ironizou a centralidade de temas relacionados a pessoas trans em banheiros e voltou a associar o desempenho eleitoral da direita ao funcionamento das redes sociais e dos vídeos curtos.
Na prática, o argumento mudou de foco.
Durante a campanha, a pergunta era como derrotar o bolsonarismo dentro da direita. Depois da eleição, Renan passou a questionar as próprias características desse campo: o peso das redes sociais, as pautas que mobilizam seus eleitores e a possibilidade de convencê-los por meio de uma alternativa política concorrente.
Esse movimento ajuda a explicar por que suas declarações após o primeiro turno soam diferentes das críticas anteriores a Bolsonaro. Renan não está apenas atacando adversários da direita; está colocando em dúvida a estratégia de continuar tentando ocupar esse espaço.
O resultado das urnas colocou a estratégia à prova
O primeiro turno ocorreu no domingo (4). Flávio Bolsonaro terminou na primeira posição, com 47,03% dos votos válidos, seguido por Lula, com 45,16%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
Renan ficou fora da disputa e classificou o desempenho do próprio projeto como “muito ruim”. Também reconheceu a força alcançada pelo bolsonarismo e afirmou que integrantes de seu grupo que decidirem migrar para esse campo poderão fazê-lo, desta vez, sem oposição de sua parte.
“Quem quiser sair para o bolsonarismo sairá, pela primeira vez, sem oposição da nossa parte”, afirmou.
A frase marca uma diferença importante. O Missão foi construído justamente na tentativa de formar uma alternativa ao bolsonarismo e disputar o comando político da direita. Depois da eleição, Renan passou a reconhecer que Bolsonaro continua sendo o eixo em torno do qual esse eleitorado se organiza.
Isso significa uma aproximação com a esquerda?
Até agora, não.
Nos últimos dias, Renan também chamou atenção ao recomendar a leitura de autores de esquerda e ao fazer comentários que alimentaram especulações nas redes sociais sobre uma possível aproximação com Lula. Mas ele rejeitou essa interpretação e continua afirmando que não apoiará nenhum dos dois candidatos no segundo turno.
Nesta quarta-feira (7), em nova transmissão do Análises Renais, voltou a atacar Flávio Bolsonaro, disse sentir “asco” e “ojeriza” pelo candidato do PL, mas manteve seus eleitores livres para escolher como votar.
Assim, o movimento que aparece nos primeiros dias depois da eleição não é uma migração declarada para a esquerda.
É uma revisão mais profunda da estratégia que orientou sua candidatura: Renan entrou na disputa tentando provar que havia uma direita possível fora do bolsonarismo. Saiu do primeiro turno dizendo que essa direita, eleitoralmente, praticamente não existe. E que continuar tentando conquistá-la pode ser perda de tempo.


