A cinco dias do primeiro turno, o antigo caso das “rachadinhas” de Flávio Bolsonaro voltou ao debate por dois caminhos diferentes: um pedido enviado ao Ministério Público do Rio de Janeiro para retomar a investigação e a publicação de um arquivo de mensagens e documentos guardado por Alexandre Santini, ex-sócio e antigo amigo do candidato do PL.
As duas histórias se encontraram no mesmo dia, mas não são a mesma investigação.
O pedido ao MP-RJ foi apresentado pelo deputado Rui Falcão (PT-SP) com participação do Grupo Prerrogativas. A representação aponta como possível elemento novo a existência de um cofre mantido por Flávio em uma agência do Banco do Brasil e acessado em 26 de novembro de 2012, um dia antes da formalização da compra de dois imóveis em Copacabana que já haviam chamado a atenção na investigação anterior por pagamentos em espécie. Flávio nega irregularidades nessas operações.
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A intenção de quem apresentou o pedido é tentar abrir um novo caminho de investigação sem depender das provas que foram anuladas anos atrás.
Por que isso pode fazer diferença
O caso das rachadinhas não terminou com uma absolvição de Flávio após um julgamento sobre se o esquema existiu ou não.
Em 2020, o Ministério Público denunciou Flávio, Fabrício Queiroz e outras 15 pessoas por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Segundo o MP, os fatos investigados teriam ocorrido entre 2007 e 2018, período em que Flávio era deputado estadual no Rio.
O processo começou a desmoronar quando tribunais superiores invalidaram provas. Em novembro de 2021, a Segunda Turma do STF anulou quatro dos cinco relatórios de inteligência financeira do Coaf que haviam servido de base para a denúncia, por considerar irregular a forma como os dados foram obtidos.
Sem parte essencial do material, o próprio Ministério Público pediu o encerramento da acusação. Em maio de 2022, o Órgão Especial do TJRJ rejeitou a denúncia por falta de justa causa.
Mas deixou uma porta aberta: a própria decisão registrou que a rejeição “não impede o retorno das investigações”.
É exatamente nessa brecha que o pedido apresentado agora tenta entrar. A questão passa a ser se o cofre e eventuais documentos obtidos a partir dele podem produzir uma trilha probatória independente do material invalidado.
Pedido para investigar não significa caso reaberto. Até a publicação desta matéria, não havia anúncio público de que o MP-RJ tivesse aceitado a representação ou instaurado uma nova investigação criminal contra Flávio por esses fatos.
Onde Alexandre Santini entra
Santini é uma peça antiga dessa história.
Ele foi amigo e sócio de Flávio na Bolsotini Chocolates e Café, empresa que operou uma franquia da Kopenhagen na Barra da Tijuca. A loja apareceu nas investigações porque promotores suspeitaram que ela pudesse ter sido usada para dar aparência lícita a recursos associados ao suposto esquema de devolução de salários do gabinete.
Anos depois, após romper com Flávio, Santini foi à Justiça cobrar quase R$ 1,5 milhão do antigo sócio e afirmou que Flávio havia colocado R$ 200 mil em espécie na abertura da loja.
Nesta terça-feira, Santini reapareceu no noticiário por outro motivo. O PlatôBR publicou mensagens, fotografias e documentos que ele acumulou durante a relação com Flávio. Entre os assuntos estão despesas pessoais, um Rolex de R$ 305 mil atribuído a um advogado próximo do senador e mensagens sobre uma suposta atuação de Flávio junto ao ministro Kassio Nunes Marques em interesse de um cliente. Flávio não respondeu às perguntas feitas por jornalistas sobre o conjunto de revelações até a noite desta terça.
Esses documentos não são, até agora, a base do pedido apresentado ao MP-RJ sobre as rachadinhas.
O que acontece é uma convergência: no mesmo momento em que o ex-sócio que administrava a empresa investigada volta a expor documentos de sua relação com Flávio, adversários políticos do candidato criam uma nova via jurídica para uma investigação que perdeu suas principais provas anos atrás.



