Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno 2.227.651 votos à frente de Lula. Três dias depois, uma das respostas mais visíveis do presidente apareceu em um celular: olhando diretamente para a câmera, Lula publicou um vídeo em formato selfie para desafiar o adversário sobre o fim da escala 6x1. Assista
O vídeo é pequeno diante de uma campanha presidencial. Mas, colocado no contexto das últimas semanas, ajuda a mostrar uma mudança bem maior. Lula está tentando corrigir não apenas o que diz, mas como fala, onde aparece e quais assuntos coloca no centro da disputa.
O resultado das urnas aumentou a urgência dessa mudança. Flávio recebeu 56.104.268 votos, ou 47,03% dos válidos. Lula ficou com 53.876.617, equivalentes a 45,16%. O segundo turno será em 25 de outubro.
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Nesta quarta-feira (7), o próprio Lula foi além ao avaliar o primeiro turno: afirmou que esta foi sua campanha “menos organizada desde 1989”. A declaração expõe que, dentro do campo governista, o desempenho não está sendo tratado apenas como consequência de uma disputa apertada, mas também como um problema de execução da campanha.
O selfie começou como resistência
A mudança nas redes não surgiu depois da votação. O problema já vinha sendo discutido.
Em agosto, quando a campanha queria substituir parte dos cortes de discursos por conteúdos produzidos especificamente para redes sociais, Lula ainda resistia a gravar vídeos em formato selfie. A preocupação de aliados era adaptar a comunicação a ambientes como Instagram e TikTok, especialmente para alcançar públicos mais jovens.
Em setembro, a resistência começou a ceder. Lula fez sua primeira live da campanha e aliados afirmaram que ele havia sido convencido a experimentar novos formatos, incluindo gravações em selfie.
Mas foi depois do resultado do primeiro turno que o assunto virou prioridade declarada pelo próprio candidato.
Na segunda-feira (5), Lula resumiu a correção que pretendia fazer: “vou ter que fazer mais rádio, vou ter que fazer mais selfies, vou ter que conversar mais”. Na mesma reunião, também defendeu voltar aos debates de televisão, dos quais havia ficado fora no primeiro turno.
Dois dias depois, o selfie deixou de ser uma recomendação de aliados e apareceu efetivamente na campanha.
Não é só uma mudança de formato
O assunto escolhido para a gravação ajuda a entender a segunda parte da estratégia.
Lula não usou o vídeo para falar de um conceito amplo ou fazer um balanço de governo. Escolheu a escala 6x1, resumiu sua posição como cinco dias de trabalho e dois de descanso sem redução salarial e colocou Flávio diante de um conflito fácil de compreender.
Na publicação, escreveu que havia chegado a “hora da verdade” para saber quem estava ao lado dos trabalhadores.
A mudança importa porque críticas internas à campanha já apontavam dificuldade para transformar temas como soberania nacional e minerais estratégicos em mensagens que dialogassem diretamente com o cotidiano. Depois do primeiro turno, integrantes da campanha passaram a defender maior ênfase no impacto concreto de uma eventual troca de governo, incluindo políticas públicas, benefícios e direitos.
A escala 6x1 se encaixa quase perfeitamente nessa lógica: em vez de pedir ao eleitor que acompanhe uma discussão abstrata, Lula tenta transformar o segundo turno em uma escolha sobre o que muda na rotina de trabalho, na renda e no acesso a políticas públicas dependendo de quem vencer.
É uma alteração de eixo. O presidente continua defendendo o legado do governo, mas a campanha tenta reduzir a distância entre uma realização ou proposta e a pergunta que interessa ao eleitor: o que isso muda na minha vida?
Rádio, debate e rua completam a mudança
A tentativa de aproximação não ficará restrita ao celular.
Lula afirmou que fez pouco rádio durante o primeiro turno e quer aumentar sua presença no meio. A propaganda eleitoral gratuita também retorna na sexta-feira (9), agora com Lula e Flávio dispondo de tempos iguais no segundo turno.
Nos debates, a mudança é ainda mais evidente. Lula não participou dos encontros do primeiro turno e agora argumenta que o confronto passou a fazer sentido porque haverá apenas dois candidatos.
A disposição também existe do outro lado. Flávio afirmou que pretende participar, e há debates previstos ao longo das próximas semanas, incluindo encontros organizados por Record, Band e Globo.
A campanha ainda pretende reforçar viagens, atos e articulações estaduais. É uma combinação que parece contraditória apenas à primeira vista: mais tecnologia e mais rua ao mesmo tempo.
Na prática, as duas coisas cumprem função semelhante. O objetivo é reduzir intermediários entre Lula e o eleitor.
A disputa é também por quem não votou
Há outro público no centro dessa reorganização: quem ficou fora das urnas no primeiro turno.
A abstenção passou a ser tratada pela campanha como uma reserva importante de votos para uma eleição separada por pouco mais de 2,2 milhões de votos. Ao mesmo tempo, a equipe tenta melhorar o desempenho entre grupos nos quais identifica dificuldades de comunicação, especialmente jovens.
Isso ajuda a explicar por que influenciadores, lideranças com alcance próprio e conteúdos menos produzidos ganharam espaço na discussão interna.
O objetivo não é simplesmente transformar Lula em um criador de conteúdo. É tentar transportar para o ambiente digital uma característica que historicamente fez parte de sua política presencial: a conversa direta e a capacidade de transformar uma questão complexa em uma disputa compreensível para públicos diferentes.
O teste começa agora
Ainda é cedo para saber se a mudança funcionará.
A diferença do primeiro turno continua existindo, Flávio entra na nova etapa depois de uma forte aceleração digital na reta final e os dois candidatos terão praticamente três semanas para disputar eleitores que votaram em outras candidaturas, se abstiveram ou ainda podem mudar de escolha.
Mas o segundo turno de Lula já começa diferente do primeiro.
Mais do que adicionar selfies à campanha, o presidente tenta modificar a linguagem, o ritmo e o tipo de confronto que oferece ao eleitor. O vídeo sobre a escala 6x1 é a primeira demonstração clara dessa nova fase, e não apenas uma mudança estética nas redes.



