Uma mensagem enviada a Daniel Vorcaro colocou Flávio Bolsonaro e Neymar Pai no mesmo diálogo enquanto o banqueiro tentava destravar duas negociações diferentes: o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, e uma possível parceria comercial do Banco Master com o Santos.
O registro é de 11 de fevereiro de 2025. Thiago Miranda, publicitário que fazia a interlocução com Vorcaro, diz que precisava de ajuda para resolver “a questão do filme e do Santos” porque os dois assuntos não haviam avançado. Logo depois, escreve: “Flavio B e Neypai estão me cobrando”. A conversa consta de material apreendido pela Polícia Federal e foi confirmada no relatório da investigação.
A frase junta dois nomes conhecidos, mas não significa que Flávio e Neymar Pai estivessem tratando do mesmo negócio. As mensagens mostram duas frentes paralelas, intermediadas por Miranda.
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O que Neymar Pai negociava com Vorcaro
Neymar havia acabado de retornar ao Santos. O clube anunciou oficialmente sua volta em 31 de janeiro de 2025, e a chegada do jogador abriu uma nova frente comercial em torno de patrocínios e exploração de sua imagem.
No dia seguinte ao retorno, Miranda já falava com Vorcaro sobre uma “demanda do Neymar”. Em 3 de fevereiro, informou que tentava organizar uma reunião na casa do banqueiro com Neymar Pai e pessoas ligadas ao jogador. As mensagens indicavam que Neymar Jr. também poderia participar, dependendo de seu horário no centro de treinamento.
Em 5 de fevereiro, Vorcaro recebeu cartas de intenção relacionadas ao Santos e a Neymar. Uma delas propunha R$ 15 milhões para que a marca do Banco Master ocupasse três espaços no uniforme do clube. No dia seguinte, Miranda afirmou que Neymar Pai pretendia levar o filho para conversar pessoalmente com o banqueiro.
O interesse comercial de Neymar Pai nessa frente tem contexto. No acordo firmado após a volta do jogador, a NR Sports, empresa da família, passou a ter participação relevante nas receitas adicionais de patrocínio geradas pelo retorno de Neymar. O contrato previa que 75% dos valores de novos acordos ou ampliações de patrocínios fossem destinados à estrutura comercial ligada ao jogador, ficando 25% com o Santos.
Os documentos divulgados agora, porém, não comprovam que Neymar Jr. tenha efetivamente participado de uma reunião com Vorcaro nem que a proposta de R$ 15 milhões tenha sido fechada. A própria mensagem de 11 de fevereiro também não informa quanto Neymar Pai estaria cobrando.
Enquanto isso, Flávio cobrava o filme
Do outro lado da mensagem estava Dark Horse.
Thiago Miranda vinha intermediando desde dezembro de 2024 a aproximação entre Vorcaro e o projeto sobre Jair Bolsonaro. Um documento encaminhado ao banqueiro previa financiamento de até US$ 24 milhões, dividido em 14 parcelas. Em 20 de janeiro, Miranda já havia cobrado o primeiro aporte e encaminhado a Vorcaro uma mensagem de Flávio cobrando resposta do jurídico.
No fim daquele mês, Vorcaro passou a pressionar pessoas de seu próprio grupo para que os pagamentos fossem feitos. Em 5 de fevereiro, diante da dificuldade para executar uma remessa, sugeriu que a operação fosse feita “via Entre”, referência que a PF associou à Entre Investimentos. O dinheiro seguiria para um fundo.
É nesse ponto que a nova mensagem ganha importância.
Na manhã de 11 de fevereiro, Miranda informa a Vorcaro que “Flavio B e Neypai” estão cobrando. No mesmo dia, Vorcaro pressiona Fabiano Zettel, seu cunhado, para resolver o câmbio destinado ao filme e diz que o problema precisava ser solucionado naquele dia.
Dois dias depois, em 13 de fevereiro, a Entre transferiu US$ 2 milhões para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos. No dia 14, Zettel enviou o comprovante a Vorcaro e indicou que a operação era destinada ao filme.
A proximidade das datas não demonstra que a cobrança relatada por Miranda tenha causado a transferência. As tratativas para o pagamento já estavam em andamento havia semanas. O que a sequência mostra é que, enquanto Flávio pressionava pelo avanço do projeto, Vorcaro também pressionava seus operadores para destravar o dinheiro.
Duas negociações e um mesmo intermediário
A presença de Neymar Pai ajuda a esclarecer o papel de Thiago Miranda.
Ele não atuava apenas como ponte entre Flávio e Vorcaro. No começo de fevereiro de 2025, Miranda tentava levar ao banqueiro diferentes negócios e interlocutores: de um lado, o financiamento de um filme politicamente ligado à família Bolsonaro; de outro, uma oportunidade comercial surgida com o retorno de Neymar ao Santos.
Por isso os dois assuntos aparecem juntos na conversa de 11 de fevereiro. Não há, no material divulgado, indicação de que Neymar Pai tivesse relação com Dark Horse ou de que Flávio participasse da negociação de patrocínio do Santos.
A ligação entre Flávio e o financiamento do filme, por outro lado, aparece em uma sequência maior de registros. Meses depois, a PF identificou novas cobranças, mensagens e possíveis encontros. Em setembro de 2025, Flávio chegou a enviar áudio diretamente a Vorcaro demonstrando preocupação com parcelas atrasadas da produção.
Quando falou publicamente sobre o episódio no Senado, em maio de 2026, Flávio afirmou que o filme recebeu investimento privado de Vorcaro e disse não ter nada a esconder sobre sua relação com o banqueiro.
O que a PF tenta esclarecer agora vai além da existência desse financiamento. A investigação acompanha como os recursos foram transferidos, por que passaram por estruturas como Entre e Havengate e quem recebeu o dinheiro nos Estados Unidos.
O Trendahora mostrou em 16 de setembro que os documentos já públicos apontam sete remessas que somam US$ 12,33 milhões, diante de um acordo originalmente discutido em até US$ 24 milhões. A nova mensagem acrescenta um detalhe importante a essa linha do tempo: Flávio já aparecia cobrando a intermediação justamente quando o primeiro pagamento internacional conhecido estava prestes a sair.



