A investigação sobre o Banco Master chegou ao núcleo de quem tinha a função de fiscalizar o banco.
Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, relatou à Polícia Federal que se reuniu pelo menos cinco vezes em endereços de Daniel Vorcaro: cerca de três vezes em São Paulo e duas em Brasília. Belline comandava justamente a área do BC responsável por acompanhar instituições financeiras, identificar problemas e cobrar correções.
Segundo o depoimento, os encontros serviam para discutir o modelo de negócios do Master e questões regulatórias. Vorcaro também confirmou à PF que recebeu Belline e outros integrantes do BC em seus endereços. Em Brasília, afirmou que sua casa também funcionava como escritório do banco. As visitas relatadas por Belline não aparecem em sua agenda pública consultada pela Folha.
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O caso ganhou peso porque os encontros se cruzam com outra frente já investigada: dinheiro recebido pelo então chefe da supervisão.
R$ 3,8 milhões e a fiscalização
Belline recebeu R$ 3,8 milhões por meio da Varajo Consultoria, ligada a Leonardo Palhares, empresário que aparece na investigação sobre o entorno de Vorcaro.
Uma investigação interna do Banco Central concluiu que contratos usados nesses pagamentos teriam sido simulados para esconder vantagem indevida. Belline afirma que o dinheiro estava ligado a um projeto social destinado a aproximar jovens de comunidades do mercado financeiro.
Em depoimento, ele contou ainda que consultou informalmente integrantes da Comissão de Ética do BC antes de aceitar o trabalho, mas não informou o valor do contrato nem citou o nome de Vorcaro nessa consulta.
Outro personagem importante nessa história é Paulo Sérgio Neves de Souza. Ele foi diretor de Fiscalização do Banco Central e depois passou a atuar como chefe-adjunto da Supervisão Bancária, abaixo de Belline. Registros oficiais do BC confirmam sua passagem pelo comando da fiscalização.
Paulo Sérgio participou de parte das reuniões relatadas por Belline e também está no centro de uma informação que ajuda a explicar por que outros nomes importantes agora serão ouvidos.
O alerta de R$ 32 bilhões
Paulo Sérgio afirmou à PF que o BTG Pactual analisou o Master em 2024 e identificou um possível rombo de aproximadamente R$ 32 bilhões.
BTG Pactual é um dos principais bancos privados de investimento do país. André Esteves, um de seus nomes mais conhecidos, atualmente preside o Conselho de Administração da instituição.
Segundo Paulo Sérgio, o BTG comunicou o problema verbalmente e fez uma apresentação ao Banco Central em 3 de dezembro de 2024. Roberto Campos Neto, que presidiu o BC entre 2019 e o fim de 2024, estava na reunião. O depoimento registra que o BTG não entregou documentos naquele encontro.
Mensagens reveladas agora mostram ainda que Campos Neto chegou a convidar Vorcaro, em dezembro de 2023, para um encontro em sua casa no interior de São Paulo. A reunião acabou transferida para a sede do Banco Central em São Paulo, onde ocorreu oficialmente.
A sequência colocou André Esteves e Campos Neto diretamente na linha de perguntas que a PF quer reconstruir: o que o BTG encontrou, como isso foi comunicado ao BC e o que aconteceu depois.
Galípolo e a desconfiança dentro do BC
Gabriel Galípolo é o atual presidente do Banco Central, cargo que ocupa desde janeiro de 2025. Foi durante sua gestão que o Master acabou liquidado, em novembro do ano passado.
No estágio final da crise, porém, a própria estrutura interna do BC estava sob desconfiança.
Ailton de Aquino, atual diretor de Fiscalização, a diretoria responsável pela área que acompanha os bancos, afirmou à PF que havia vazamentos intensos dentro do órgão. Segundo ele, a decisão de liquidar o Master foi escondida de Belline e Paulo Sérgio. Aquino relatou que ele e Galípolo “não confiavam em ninguém” naquele momento.
Aquino disse ainda que Belline e Paulo Sérgio insistiram para antecipar para 17 de novembro uma reunião que inicialmente ocorreria dois dias depois. Na conversa, Vorcaro apresentou uma proposta de venda do Master à Fictor por cerca de R$ 3 bilhões.
Naquele mesmo dia, Galípolo reuniu a diretoria do Banco Central, e a liquidação foi aprovada. No dia seguinte, 18 de novembro de 2025, o BC retirou o Master do mercado, citando grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e graves violações das normas do sistema financeiro.
Quem será ouvido agora
A nova rodada de depoimentos começa na próxima semana.
André Esteves está previsto para falar à PF na segunda-feira (5). Gabriel Galípolo, na terça (6). Roberto Campos Neto, na quarta (7). Ailton de Aquino deve ser ouvido na quinta-feira (8).
Os quatro estão em posições diferentes da mesma linha do tempo: o BTG analisou o Master; Campos Neto comandava o BC quando ocorreu a apresentação de 2024; Galípolo presidia a instituição quando veio a liquidação; e Aquino comandava a fiscalização no estágio final da crise.
O Banco Central é o órgão que estabelece regras e fiscaliza os bancos brasileiros. Quando uma instituição apresenta problemas graves, também cabe ao BC adotar medidas que podem chegar à liquidação, o encerramento controlado das atividades do banco.
No caso Master, a própria investigação da PF já registrou uma possível interlocução direta de Vorcaro com servidores que atuavam justamente na supervisão bancária.
A questão que a nova rodada tenta organizar agora é simples: o que cada nível da fiscalização sabia sobre os problemas do Master, quando soube e o que foi feito a partir daí.



