O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, admitiu nesta quarta-feira (21) aceitar um cessar-fogo que mantenha as tropas russas nos territórios que já ocupam. A declaração abre caminho para uma possível interrupção dos combates, mesmo com quase 20% do território ucraniano sob controle de Moscou.
No mesmo dia, o presidente russo, Vladimir Putin, sinalizou disposição para retomar negociações com Ucrânia e Estados Unidos em novembro. A movimentação ocorreu após uma reunião com Steve Witkoff, enviado especial do presidente americano Donald Trump, em São Petersburgo.
As duas declarações indicam uma tentativa de reabrir o diálogo, mas ainda não representam um acordo. A Rússia não aceitou interromper os ataques nem concordou com as condições apresentadas por Kiev e seus parceiros europeus.
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O principal impasse permanece: Zelensky admite parar de lutar sem recuperar imediatamente os territórios ocupados, enquanto Putin mantém exigências que vão além das posições atuais de suas tropas.
Zelensky aceita parar a guerra, mas não entregar oficialmente os territórios
Em entrevista ao programa Fox & Friends, da Fox News, Zelensky foi questionado se aceitaria um acordo que congelasse a guerra nas posições militares atuais.
O presidente respondeu afirmativamente e declarou que interromper os combates seria um caminho realista para encerrar o conflito. Depois disso, a Ucrânia buscaria garantias de segurança com os Estados Unidos e os países europeus.
A proposta significa, na prática, que as tropas dos dois países permaneceriam onde estão, enquanto as negociações continuassem.
Segundo levantamento do Russia Matters baseado em dados do projeto ucraniano DeepState, a Rússia controlava aproximadamente 19% do território da Ucrânia em 19 de outubro, incluindo a Crimeia e áreas ocupadas antes da invasão em larga escala de fevereiro de 2022.
Isso não significa que Zelensky esteja reconhecendo essas regiões como parte da Rússia.
Existe uma diferença entre aceitar temporariamente a ocupação militar e reconhecer oficialmente a soberania russa. No primeiro caso, os territórios continuariam sendo reivindicados pela Ucrânia, mesmo que o país deixasse de tentar recuperá-los militarmente durante o cessar-fogo.
Essa distinção permite a Kiev negociar uma interrupção das mortes sem declarar que abriu mão definitivamente das regiões ocupadas.
Putin aceita negociar, mas mantém o impasse
Enquanto Zelensky defendia o congelamento das linhas de frente, Putin recebia Steve Witkoff em São Petersburgo.
Após o encontro, o assessor presidencial russo Yuri Ushakov afirmou que Moscou estava disposta, em princípio, a retomar negociações trilaterais com Ucrânia e Estados Unidos por volta de 10 de novembro.
Segundo Ushakov, as conversas teriam como tema central a construção de um sistema de segurança para Rússia e Ucrânia após a guerra. A reunião ainda depende de novos entendimentos.
O problema é que o Kremlin não demonstrou a mesma disposição para aceitar as condições ucranianas.
Ushakov afirmou que as propostas levadas por Witkoff, elaboradas após reuniões com representantes da Ucrânia e de países europeus, continham poucos elementos úteis para resolver o conflito.
Moscou também mantém reivindicações sobre regiões que suas tropas ainda não controlam integralmente. A posição russa inclui exigências sobre Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia, regiões ucranianas que o governo Putin declarou anexadas e que Kiev não reconhece como território russo.
Essa divergência explica por que congelar as linhas atuais não resolve automaticamente a guerra: a Ucrânia pretende manter suas posições militares, enquanto a Rússia continua reivindicando áreas adicionais.
Uma proposta que Zelensky já havia admitido
A disposição de congelar a linha de frente não surgiu agora.
Em 24 de fevereiro de 2026, em entrevista à CNN, Zelensky já havia afirmado que a Ucrânia aceitava discutir a interrupção dos combates nas posições atuais.
Na ocasião, ele ressaltou que isso não poderia significar a retirada das tropas ucranianas das linhas defensivas que ainda controlavam.
A diferença agora é o contexto diplomático.
Na terça-feira (20), Zelensky participou de reuniões em Oslo com o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e representantes americanos e europeus.
O governo norueguês confirmou que as conversas abordaram questões territoriais, garantias de segurança e a reconstrução econômica da Ucrânia após a guerra.
Witkoff participou presencialmente, enquanto Jared Kushner, também envolvido na mediação americana, participou por videoconferência.
No dia seguinte, Witkoff levou as discussões a Putin, criando uma sequência de contatos diplomáticos entre os dois lados do conflito.
O custo humano por trás da negociação
Um dia antes de admitir publicamente o congelamento das linhas de frente, Zelensky havia feito um apelo pelo fim da guerra durante uma entrevista coletiva em Oslo.
"Não estamos perdendo esta guerra. Mas estamos perdendo pessoas", afirmou o presidente ucraniano.
Ele também lamentou que crianças estejam crescendo sem uma infância normal e defendeu o encerramento do conflito o mais rápido possível.
Os números divulgados pela Organização das Nações Unidas ajudam a dimensionar essa pressão.
Segundo relatório publicado em 15 de outubro, pelo menos 328 civis morreram e 2.105 ficaram feridos na Ucrânia somente em setembro de 2026.
O documento também aponta que o número de civis mortos e feridos entre janeiro e setembro foi 59% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
Os ataques contra a população e a infraestrutura continuam enquanto os governos discutem possíveis caminhos diplomáticos.
O que falta para a guerra realmente parar?
O próximo passo depende de transformar as declarações em compromissos concretos.
A Ucrânia busca garantias de que uma interrupção dos combates não dará à Rússia a oportunidade de reorganizar suas forças e realizar outra ofensiva no futuro.
Moscou, por sua vez, quer que qualquer negociação considere suas exigências territoriais e de segurança.
Os Estados Unidos tentam aproximar as posições, enquanto os países europeus defendem participação nas decisões que afetarão a segurança da Ucrânia e do continente.
Também será necessário definir como um eventual cessar-fogo seria fiscalizado, quais ataques seriam proibidos e o que aconteceria se uma das partes descumprisse o acordo.
Por enquanto, a principal mudança é diplomática: Zelensky admite interromper a guerra sem recuperar imediatamente todo o território ucraniano, e Putin aceita discutir novamente os termos de um possível acordo.

