A União Europeia começou a preparar um plano para enfrentar a pressão sobre o abastecimento de querosene de aviação depois que a Agência Internacional de Energia, a IEA, alertou para o risco de escassez na Europa se a crise no Estreito de Ormuz continuar. O movimento marca uma mudança de estágio no problema: o tema saiu do campo do alerta setorial e entrou na agenda direta de resposta do bloco europeu.

O sinal de alerta mais forte veio de Fatih Birol, diretor-executivo da IEA, que afirmou em entrevista à Associated Press que a Europa tem “talvez seis semanas” de querosene de aviação e que cancelamentos de voos podem começar em breve caso o fluxo de energia siga bloqueado. Na mesma entrevista, Birol disse que quase 20% do petróleo negociado no mundo passa normalmente por Ormuz e que mais de 110 petroleiros e mais de 15 navios carregados com gás natural liquefeito continuam retidos no Golfo Pérsico.

Os números do relatório mensal da própria IEA ajudam a explicar por que a preocupação aumentou. Segundo o documento, a demanda da Europa da OCDE por querosene de aviação foi de 1,6 milhão de barris por dia no ano passado, atendida por 1,1 milhão de barris por dia de produção doméstica e 500 mil barris por dia de importações líquidas. Desse total importado, até 375 mil barris por dia, ou 75%, costumam vir do Oriente Médio. O relatório também mostra que os estoques europeus terminaram dezembro de 2025 em 52,7 milhões de barris, 7% abaixo do nível de um ano antes, com cobertura futura de 37 dias.

Mesmo com a reação do mercado, a reposição ainda está longe de fechar a conta. Dados citados pela Reuters mostram que a Europa vem recebendo volumes recordes de querosene dos Estados Unidos em abril, estimados entre 149 mil e 200 mil barris por dia. Ainda assim, esse reforço não compensa integralmente a perda dos fluxos que normalmente chegam do Oriente Médio. A pressão também aparece nos estoques: no hub Amsterdam-Rotterdam-Antwerp, referência logística para a região, as reservas caíram ao menor nível desde março de 2023.

A resposta política europeia tenta ganhar tempo antes do pico da temporada de viagens. A Reuters informou que a Comissão Europeia trabalha em medidas para mapear a capacidade de refino no continente e maximizar o uso das refinarias, com proposta formal prevista para 22 de abril. O dado chama atenção porque, em 14 de abril, a própria Comissão havia afirmado que não havia escassez de querosene “no momento”, embora reconhecesse risco de problemas de oferta no curto prazo.

O risco, porém, não é igual em todo o continente. A IEA observa que a média europeia esconde diferenças nacionais relevantes. A Espanha aparece como exportadora líquida de querosene, enquanto o Reino Unido, maior consumidor da região, importa 65% do que precisa. A associação de aeroportos ACI Europe também advertiu, em carta à Comissão Europeia em 10 de abril, que uma escassez “sistêmica” pode se tornar realidade na União Europeia se Ormuz não for reaberto nas três semanas seguintes.

No cenário traçado pela IEA, o ponto crítico começa quando a cobertura de estoques cai abaixo de 23 dias, nível em que podem surgir faltas físicas em aeroportos selecionados e cancelamentos de voos. O relatório diz que, se a Europa conseguir repor apenas metade do volume normalmente recebido do Oriente Médio, esse nível pode ser atingido já em junho. Se conseguir repor 75%, a pressão pode empurrar o problema para agosto. Em outras palavras, a Europa ainda não enfrenta uma falta generalizada, mas o colchão de segurança encolheu e a margem para erro ficou mais curta.