O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, disse que a chance de um acordo negociado com Cuba “não é alta”, embora Washington afirme preferir uma solução diplomática.
A declaração amplia a tensão entre os dois países em um momento em que Donald Trump voltou a sugerir que pode agir contra a ilha e um dia depois de os EUA indiciarem Raúl Castro por acusações ligadas ao abatimento de aviões civis em 1996.
A nova fase da crise não se resume a uma frente diplomática. Nos últimos dias, a pressão americana contra Havana passou a combinar acusação criminal contra uma figura histórica do regime cubano, falas de Trump sobre possível ação contra a ilha, sanções econômicas, críticas ao conglomerado militar GAESA e reação de potências como China e Rússia.
Rubio diz que acordo é improvável
Rubio afirmou que os EUA preferem uma solução diplomática, mas disse que a possibilidade de um acordo negociado com a atual liderança cubana é baixa. Segundo a Reuters, o secretário também rejeitou a ideia de que Washington esteja tentando fazer “nation-building” e afirmou que a pressão sobre Cuba está ligada à segurança nacional dos Estados Unidos.
A fala coloca a diplomacia em segundo plano no momento em que a Casa Branca aumenta o tom contra Havana. A mensagem é dupla: os EUA dizem manter aberta a via de negociação, mas sinalizam que não esperam um entendimento real com o regime cubano no curto prazo.
Trump volta a falar em agir contra Cuba
Trump voltou a levantar a possibilidade de ação dos EUA contra Cuba. Ao responder sobre a ilha, o presidente afirmou que presidentes anteriores consideraram agir por décadas e disse que “parece” que ele será o presidente a fazer isso.
A declaração elevou o peso político da crise. Até então, a nova pressão contra Havana vinha sendo apresentada principalmente como resposta jurídica e econômica. Com a fala de Trump, Cuba volta a aparecer como possível foco direto de uma política externa mais agressiva dos EUA no Caribe.
O indiciamento de Raúl Castro
A escalada ocorre logo depois de o Departamento de Justiça dos EUA anunciar o indiciamento de Raúl Castro e outros cinco acusados pelo caso do abatimento de dois aviões civis do grupo Brothers to the Rescue, em 1996. Segundo o Departamento de Justiça, caças cubanos derrubaram duas aeronaves civis desarmadas fora do território cubano, matando quatro pessoas.
Raúl Castro era ministro da Defesa de Cuba na época. O indiciamento tem peso simbólico porque mira um dos nomes centrais da geração histórica do regime cubano, mesmo que não haja sinal de que Havana permita sua extradição aos Estados Unidos.
O caso antigo agora voltou em um contexto novo. No plano jurídico, Washington apresenta a acusação como responsabilização por mortes ocorridas em 1996. No plano político, o indiciamento funciona como mais uma peça da pressão atual de Trump contra Cuba.
GAESA entra no centro da pressão
Outro ponto da ofensiva americana é o GAESA, conglomerado controlado pelos militares cubanos. A Reuters informou que Rubio acusa o grupo de concentrar setores lucrativos da economia cubana e de beneficiar a elite militar enquanto a população enfrenta escassez.
O tema é relevante porque mostra que a pressão dos EUA não está limitada ao discurso político. Washington tenta atingir estruturas econômicas associadas ao regime, especialmente áreas ligadas a hotéis, portos, bancos, remessas e outros setores estratégicos controlados por militares cubanos.
Para os EUA, o GAESA simboliza a captura da economia cubana por uma elite militar. Para Havana, esse tipo de sanção aprofunda a crise econômica e faz parte de uma política de sufocamento contra a ilha.
China e Rússia reagem
A crise também ganhou dimensão geopolítica. A China condenou as acusações contra Raúl Castro e pediu que os EUA parem de usar sanções, mecanismos judiciais e ameaças de força contra Cuba.
A Rússia também saiu em defesa de Havana. O Ministério das Relações Exteriores russo afirmou que continuará dando apoio ativo a Cuba e acusou Washington de interferência, intimidação, sanções e chantagem.
Essas reações mudam o peso da pauta. A tensão deixa de ser apenas bilateral entre EUA e Cuba e passa a se conectar à disputa mais ampla entre Washington e adversários estratégicos no hemisfério ocidental.
Uma crise em várias frentes
A fala de Rubio mostra que a janela diplomática existe no discurso, mas está estreita na prática. Ao mesmo tempo em que os EUA dizem preferir uma solução negociada, Trump aumenta o tom, o Departamento de Justiça mira Raúl Castro, sanções econômicas pressionam estruturas do regime e China e Rússia se posicionam ao lado de Havana.
Para o Brasil, o impacto imediato não é econômico, mas político-diplomático. Se a tensão crescer, a crise pode chegar a fóruns regionais e internacionais, como OEA, ONU e articulações latino-americanas, onde Brasília tende a ser cobrada por uma posição.
O ponto central é que Cuba voltou ao centro da política externa americana não por um único movimento, mas por uma combinação de pressões. A ilha agora enfrenta uma ofensiva simultânea: jurídica, econômica, diplomática e estratégica.



