O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou a agenda oficial em Barcelona, neste fim de semana, para reforçar uma linha política que combinou defesa do multilateralismo, reforma da governança global, regulação das plataformas digitais e ampliação da cooperação internacional. A viagem incluiu dois momentos centrais: a I Cúpula Espanha-Brasil, na sexta-feira, 17 de abril, e a 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre, no sábado, 18.

Na etapa bilateral com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, Lula participou da assinatura de uma carteira ampla de acordos entre Brasil e Espanha. O Planalto descreveu a agenda como uma ampliação da cooperação entre os dois países em áreas estratégicas, enquanto a Associated Press informou que o encontro resultou na assinatura de 15 acordos, incluindo frentes ligadas a comércio, espaço e exploração de terras raras.

No discurso político da viagem, Lula tentou projetar Barcelona como vitrine de uma agenda internacional mais ampla. No Fórum Democracia Sempre, o presidente defendeu fortalecimento do multilateralismo, ampliação da representatividade da ONU e mais cooperação entre países para proteger a democracia. Em fala divulgada pelo Planalto, Lula afirmou que a ONU “não pode ficar silenciosa” diante das crises internacionais, num recado que conecta a agenda institucional do encontro à crítica brasileira ao enfraquecimento dos mecanismos globais de mediação.

Outro eixo importante da passagem por Barcelona foi a regulação do ambiente digital. Em declaração conjunta com Sánchez, Lula afirmou que aquilo que é crime no mundo real também precisa ser tratado como crime no mundo virtual. O Planalto destacou ainda que o presidente brasileiro citou o ECA Digital como um primeiro passo nessa direção, enquanto o governo espanhol colocou a governança digital entre os três grandes eixos do encontro ao lado do multilateralismo e do combate à desigualdade.

O ponto de maior repercussão política, porém, veio da posição conjunta sobre Cuba. Após a reunião em Barcelona, Brasil, Espanha e México anunciaram que vão ampliar a ajuda humanitária coordenada à ilha. Segundo a Reuters, os três países defenderam “diálogo sincero” em linha com a Carta da ONU e afirmaram que o povo cubano deve ser livre para decidir o próprio futuro. A declaração apareceu em meio a uma deterioração das condições econômicas e energéticas em Cuba e acabou se tornando o trecho mais sensível de toda a agenda diplomática.

Foi justamente esse ponto que puxou a reação de Donald Trump. Após a reunião, Trump repercutiu em sua rede social um vídeo com uma fala de Lula sobre Cuba, deslocando o foco do encontro de Barcelona para o tema mais explosivo do ponto de vista ideológico.

Do ponto de vista diplomático, a passagem de Lula por Barcelona deixa dois resultados objetivos. O primeiro é bilateral: a consolidação de uma agenda mais densa com a Espanha em áreas econômicas, tecnológicas e institucionais. O segundo é político: a tentativa de colocar Brasil, Espanha e México no centro de uma articulação internacional que associa defesa da democracia, regulação do espaço digital e saída negociada para crises regionais, entre elas a situação cubana. A reação de Trump, nesse contexto, não altera o núcleo da reunião, mas ajuda a mostrar qual parte da agenda teve maior capacidade de gerar repercussão imediata fora do evento.