O Irã afirmou que não terá reunião direta com enviados dos Estados Unidos no Catar, apesar da chegada de Jared Kushner e Steve Witkoff a Doha para conversas mediadas pelo governo catariano. A negativa expõe a fragilidade do acordo provisório entre Washington e Teerã e mantém em aberto o impasse sobre o Estreito de Ormuz, rota estratégica para petróleo, gás e fertilizantes.

Segundo a Reuters, Kushner, genro do presidente Donald Trump, e Witkoff, enviado especial dos EUA, foram ao Catar para tratar das negociações com mediadores locais. O governo catariano, porém, afirmou que não havia encontro de alto nível marcado entre representantes americanos e iranianos.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, disse que “nenhuma reunião em qualquer nível” com o lado americano estava prevista para os próximos dias. Teerã sustenta que, antes de discutir temas mais difíceis, como limites ao programa nuclear, é preciso definir a implementação do cessar-fogo assinado há cerca de duas semanas.

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Impasse passa por dinheiro congelado e controle de Ormuz

O Catar também afirmou que ainda não transferiu US$ 6 bilhões em ativos iranianos congelados para Teerã. Esse ponto é uma das peças do acordo provisório costurado para reduzir as hostilidades e avançar em uma negociação mais ampla.

Outro eixo sensível é o Estreito de Ormuz. Autoridades iranianas dizem que o Irã e Omã têm direito de administrar o tráfego na passagem marítima. Teerã também sinaliza que pode cobrar taxas de navios após o fim da janela de 60 dias prevista no memorando.

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, afirmou que Washington não aceitará que o Irã cobre pedágios de embarcações que passam por Ormuz. Ele também disse que o fluxo de petróleo pela rota voltou a níveis anteriores à guerra, embora não tenha apresentado números.

Catar tenta manter mediação aberta

O Catar vinha tratando o memorando entre EUA e Irã como base para uma nova fase de negociações. O documento prevê a cessação de operações militares e a garantia de liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, mas a falta de contato direto entre Washington e Teerã mostra que a implementação ainda está longe de ser consolidada.

Na prática, a diplomacia segue em dois níveis separados. De um lado, há conversas técnicas e mediação do Catar. De outro, ainda não há negociação política direta entre americanos e iranianos sobre os pontos centrais do acordo.

Esse distanciamento pesa porque o memorando abriu uma janela curta para avanço diplomático. Se os lados não destravarem o debate sobre Ormuz, ativos congelados e segurança regional, o cessar-fogo pode permanecer como uma trégua instável, sem virar acordo duradouro.

Acordo existe, mas segue frágil

A negativa iraniana não significa, por enquanto, o fim do acordo. O que ela mostra é que o processo ainda está preso à etapa de implementação e que a confiança entre as partes continua baixa.

Washington quer impedir que o Irã transforme Ormuz em instrumento permanente de pressão sobre navios comerciais. Teerã, por sua vez, tenta preservar controle sobre a rota e condicionar avanços diplomáticos à liberação de recursos e ao cumprimento dos termos iniciais do memorando.

Enquanto não houver contato direto ou avanço técnico verificável, o acordo entre EUA e Irã seguirá vulnerável a novos incidentes militares, oscilações no petróleo e pressão sobre cadeias globais que também afetam o Brasil.