A inundação repentina que atravessou os vales do Himalaia já deixou ao menos 359 mortos no Nepal, segundo a polícia do país, enquanto equipes continuam procurando centenas de desaparecidos nesta quinta-feira, 27 de agosto. No Tibete, autoridades chinesas mantêm o balanço de três mortos e 558 desaparecidos.
Somados os levantamentos disponíveis, mais de 1.300 pessoas permanecem desaparecidas nos dois lados da fronteira. As buscas ocorrem enquanto autoridades monitoram um novo bloqueio rio acima que formou um lago e pode desencadear outra inundação.
A tragédia começou na manhã de quarta-feira na região montanhosa de Rasuwa, perto da fronteira entre Nepal e China. Uma enorme massa de gelo, rochas e outros detritos despencou de uma área de grande altitude e alcançou o sistema do rio Lhende, ligado ao Bhote Koshi e, mais abaixo, ao Trishuli.
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O resultado não foi uma enchente comum provocada apenas pela elevação gradual de um rio. Água, lama, pedras e sedimentos desceram pelos vales em uma onda extremamente rápida, atingindo comunidades, estradas, pontes, instalações hidrelétricas e estruturas da passagem fronteiriça.
O que provocou a inundação
Nas primeiras horas após o desastre, uma das explicações era que um terremoto de magnitude 4,4 teria ocorrido pouco antes e poderia ter desencadeado a avalanche.
Essa interpretação mudou.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) revisou os registros sísmicos e concluiu que o sinal detectado não correspondia a um terremoto tectônico. A energia registrada pelos instrumentos havia sido produzida pelo próprio colapso de gelo e rochas e pelo movimento da enorme massa de detritos.
A reconstrução ganhou uma confirmação adicional nesta quinta-feira. O Ministério de Recursos Naturais da China informou que o desastre que atingiu Gyirong foi desencadeado pelo colapso de uma geleira em grande altitude no lado nepalês da fronteira.
Segundo o geólogo Guo Zhaocheng, do centro de monitoramento de desastres geológicos da China, a massa de gelo desceu em alta velocidade, arrancou e incorporou material glacial do terreno e se transformou em um fluxo de detritos. A corrente evoluiu para uma massa de lama, água e rochas que atingiu o Porto de Gyirong e continuou rio abaixo em direção ao Nepal.
Os cálculos chineses estimam velocidade de aproximadamente 50 metros por segundo, equivalente a cerca de 180 km/h. O fluxo teria alcançado áreas situadas a mais de 20 quilômetros do ponto de origem.
Na prática, não foi um terremoto que provocou o deslizamento: foi o próprio colapso que produziu um sinal forte o bastante para inicialmente ser interpretado como um tremor.
Especialistas do International Centre for Integrated Mountain Development (ICIMOD), sediado em Katmandu, trabalham com a hipótese de que a avalanche de gelo e rocha tenha alcançado o Lhende Khola, um afluente do Bhote Koshi.
Autoridades nepalesas também avaliam imagens de satélite que indicam que o material pode ter bloqueado temporariamente o curso da água. Nesse cenário, água e sedimentos se acumularam atrás dessa barreira natural até que ela cedeu, liberando rapidamente o volume represado. A sequência exata ainda está sendo investigada.
Nove metros em apenas 30 minutos
A estimativa chinesa ajuda a dimensionar a velocidade da primeira fase do desastre. Um fluxo a 50 metros por segundo percorre um quilômetro em cerca de 20 segundos, o que deixou pouquíssimo tempo de reação para quem estava no caminho da massa de gelo, lama e rochas.
A velocidade com que a água avançou ajuda a entender a dimensão da destruição.
Dados hidrológicos reunidos pelo ICIMOD apontam que o nível do rio Trishuli em Galchhi subiu cerca de 9 metros em apenas 30 minutos. Em Malekhu, outra estação mais abaixo no sistema fluvial, a elevação chegou a aproximadamente 7 metros no mesmo intervalo.
Isso significa que comunidades que estavam quilômetros abaixo do ponto onde ocorreu o colapso tiveram pouco tempo para reagir à onda que se aproximava.
O próprio sistema de monitoramento também foi atingido. Estações automáticas instaladas na parte superior do Bhote Koshi foram arrastadas pela inundação, prejudicando justamente a estrutura usada para acompanhar o nível do rio e antecipar cheias.
A água continuou descendo pelo Trishuli e alcançou diferentes distritos. Dos 162 corpos recuperados no Nepal até a manhã desta quinta-feira, dezenas foram encontrados muito abaixo de Rasuwa, inclusive em Chitwan, mostrando a distância percorrida pela correnteza.
Centenas ainda estão desaparecidas
Mais de 1.300 pessoas permanecem desaparecidas entre Nepal e Tibete, embora os levantamentos continuem sendo atualizados à medida que turistas, moradores e trabalhadores conseguem restabelecer contato.
No Nepal, o balanço divulgado pelas autoridades aponta 826 desaparecidos. No Tibete, o número permanece em 558, entre eles 260 estrangeiros.
As equipes conseguiram localizar 100 visitantes indianos que estavam desaparecidos e 25 trabalhadores chineses na região mais atingida, segundo o Ministério do Interior do Nepal.
As buscas continuam nos dois lados da fronteira, mas estradas destruídas, lama, interrupções nas comunicações e as condições montanhosas dificultam o acesso a diversas áreas.
Novo lago mantém risco de outra inundação
O risco de uma segunda onda deixou de ser apenas uma possibilidade genérica ligada à instabilidade do terreno.
A autoridade de gestão de desastres do Nepal informou nesta quinta-feira que imagens de satélite e análises preliminares indicam um novo bloqueio no Bhotekoshi, com formação de um lago rio acima.
O nível da água continua subindo e a barreira pode romper. Por isso, moradores e equipes que trabalham nas margens inferiores do rio foram orientados a procurar áreas seguras e permanecer afastados do curso d'água.
No lado tibetano, equipes chinesas também identificaram um bloqueio cerca de três quilômetros acima do Porto de Gyirong. Autoridades disseram que resolver o risco dessa barreira é prioridade antes que os detritos acumulados próximos ao porto possam ser removidos com segurança.
A situação mostra por que o desastre continua em andamento mesmo depois da passagem da primeira onda: novos represamentos formados por gelo, rochas e sedimentos podem acumular água e produzir novas descargas repentinas.



