Uma inundação repentina que atravessou vales do Himalaia deixou ao menos 162 mortos no Nepal e provocou uma operação de busca que ainda tenta localizar centenas de pessoas nesta quinta-feira, 27 de agosto. Do outro lado da fronteira, autoridades chinesas confirmaram outras três mortes e elevaram para 558 o número de desaparecidos no Tibete.

A tragédia começou na manhã de quarta-feira na região montanhosa de Rasuwa, perto da fronteira entre Nepal e China. Uma enorme massa de gelo, rochas e outros detritos despencou de uma área de grande altitude e alcançou o sistema do rio Lhende, ligado ao Bhote Koshi e, mais abaixo, ao Trishuli.

O resultado não foi uma enchente comum provocada apenas pela elevação gradual de um rio. Água, lama, pedras e sedimentos desceram pelos vales em uma onda extremamente rápida, atingindo comunidades, estradas, pontes, instalações hidrelétricas e estruturas da passagem fronteiriça.

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O que provocou a inundação

Nas primeiras horas após o desastre, uma das explicações era que um terremoto de magnitude 4,4 teria ocorrido pouco antes e poderia ter desencadeado a avalanche.

Essa interpretação mudou.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) revisou os registros sísmicos e concluiu que o sinal detectado não correspondia a um terremoto tectônico. A energia registrada pelos instrumentos havia sido produzida pelo próprio colapso de gelo e rochas e pelo movimento da enorme massa de detritos.

Na prática, não foi um terremoto que provocou o deslizamento: foi o próprio colapso que produziu um sinal forte o bastante para inicialmente ser interpretado como um tremor.

Especialistas do International Centre for Integrated Mountain Development (ICIMOD), sediado em Katmandu, trabalham com a hipótese de que a avalanche de gelo e rocha tenha alcançado o Lhende Khola, um afluente do Bhote Koshi.

Autoridades nepalesas também avaliam imagens de satélite que indicam que o material pode ter bloqueado temporariamente o curso da água. Nesse cenário, água e sedimentos se acumularam atrás dessa barreira natural até que ela cedeu, liberando rapidamente o volume represado. A sequência exata ainda está sendo investigada.

Nove metros em apenas 30 minutos

A velocidade com que a água avançou ajuda a entender a dimensão da destruição.

Dados hidrológicos reunidos pelo ICIMOD apontam que o nível do rio Trishuli em Galchhi subiu cerca de 9 metros em apenas 30 minutos. Em Malekhu, outra estação mais abaixo no sistema fluvial, a elevação chegou a aproximadamente 7 metros no mesmo intervalo.

Isso significa que comunidades que estavam quilômetros abaixo do ponto onde ocorreu o colapso tiveram pouco tempo para reagir à onda que se aproximava.

O próprio sistema de monitoramento também foi atingido. Estações automáticas instaladas na parte superior do Bhote Koshi foram arrastadas pela inundação, prejudicando justamente a estrutura usada para acompanhar o nível do rio e antecipar cheias.

A água continuou descendo pelo Trishuli e alcançou diferentes distritos. Dos 162 corpos recuperados no Nepal até a manhã desta quinta-feira, dezenas foram encontrados muito abaixo de Rasuwa, inclusive em Chitwan, mostrando a distância percorrida pela correnteza.

Centenas ainda estão desaparecidas

O número de desaparecidos permanece mais difícil de consolidar.

No Nepal, autoridades mantêm listas distintas de turistas, trabalhadores de projetos hidrelétricos, agentes de segurança e moradores que perderam contato após a inundação. Muitos são estrangeiros que estavam no Himalaia para turismo, trekking ou peregrinações religiosas.

Por isso, os diferentes levantamentos nepaleses ainda estão sendo conciliados e não formam um único balanço definitivo.

No lado chinês, a atualização divulgada após uma coletiva em Shigatse registra 558 desaparecidos em Gyirong, no Tibete, além de três mortos e duas pessoas resgatadas. O balanço anterior falava em 265 desaparecidos, mostrando o tamanho da revisão feita à medida que as autoridades identificam quem estava na região.

As buscas continuam nos dois lados da fronteira, mas estradas destruídas, lama, interrupções nas comunicações e as condições montanhosas dificultam o acesso a diversas áreas.

O risco não terminou com a primeira onda

Equipes científicas continuam acompanhando a parte superior do sistema fluvial porque novos bloqueios formados por gelo, pedras e detritos podem representar outro perigo.

Quando uma avalanche bloqueia um rio, a barreira criada não funciona como uma represa convencional. Ela pode ser instável e romper sem muito aviso à medida que a água se acumula atrás dela.

Por isso, comunidades rio abaixo continuam sendo orientadas a acompanhar os alertas e manter distância de áreas vulneráveis enquanto especialistas avaliam a situação nas montanhas.