O diretor da CIA, John Ratcliffe, fez uma rara viagem não anunciada a Moscou nesta terça-feira (25) para reuniões com autoridades russas, em um momento em que os Estados Unidos acompanham sinais de possível preparação para uma nova mobilização militar na Rússia e avaliam que Vladimir Putin pode estar mais disposto a testar os limites da Otan.

A pauta detalhada das reuniões não foi divulgada, mas o Kremlin confirmou posteriormente parte do objetivo da missão. Questionado sobre a presença de Ratcliffe, o porta-voz Dmitry Peskov afirmou que a viagem ocorreu para “contatos entre serviços de segurança” e não deu outros detalhes. Segundo Peskov, não havia encontro previsto entre o diretor da CIA e Vladimir Putin. A agência americana não comentou a missão.

A viagem, porém, veio acompanhada de uma providência incomum: antes de Ratcliffe chegar à Rússia, Washington informou a Ucrânia de que uma autoridade americana de alto escalão estaria no país e pediu a suspensão temporária de ataques com drones e mísseis contra Moscou e outras cidades do norte russo. Segundo pessoas ouvidas pela imprensa americana, o pedido abrangia o período da visita.

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O conjunto desses fatos não revela o que foi discutido em Moscou. Mas ajuda a entender por que a viagem chama tanta atenção: Washington recorreu diretamente ao chefe de sua principal agência de inteligência em um momento em que as negociações sobre a Ucrânia estão travadas e novas avaliações americanas levantam dúvidas sobre os próximos passos militares do Kremlin.

O que se sabe sobre a viagem

Ratcliffe chegou a Moscou em um C-17A Globemaster III da Força Aérea americana, um grande avião de transporte militar usado para deslocar pessoal, veículos, equipamentos e cargas. O voo saiu da região de Washington, passou por Riga, na Letônia, e seguiu até o aeroporto de Vnukovo, em Moscou.

Dados públicos de rastreamento mostraram que a aeronave permaneceu na capital russa por cerca de oito horas antes de partir novamente. Uma comitiva com veículos diplomáticos americanos também foi registrada na cidade.

A aeronave em si não indica uma missão militar. O C-17 também permite transportar com segurança uma delegação, seus veículos e equipamentos de comunicação, o que ajuda a explicar sua utilização numa viagem sensível desse tipo.

A importância está principalmente em quem viajou.

Ratcliffe é o primeiro diretor da CIA conhecido por visitar Moscou desde William Burns, seu antecessor, em novembro de 2021. Naquela ocasião, Burns foi enviado à Rússia quando os Estados Unidos já observavam a concentração de tropas russas perto da Ucrânia e buscavam transmitir diretamente ao Kremlin um alerta contra uma invasão. A Rússia iniciou a ofensiva em larga escala cerca de três meses depois.

O precedente de 2021 não significa que Ratcliffe tenha levado agora uma advertência semelhante. Ele mostra, porém, que uma viagem presencial de um diretor da CIA a Moscou é algo excepcional e pode ser utilizada quando Washington quer manter uma conversa particularmente sensível fora dos canais diplomáticos mais visíveis.

Por que mandar o diretor da CIA?

Estados Unidos e Rússia possuem negociadores e diplomatas capazes de conversar sobre a guerra. O enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, por exemplo, já liderou contatos do governo americano com Moscou.

Ratcliffe, no entanto, também foi incluído pela administração Trump na equipe relacionada às negociações sobre o conflito. E existe outra diferença importante: ele já mantém um canal próprio com a inteligência russa.

Em março de 2025, Ratcliffe e Sergei Naryshkin, diretor do SVR, o serviço de inteligência exterior da Rússia, conversaram por telefone. O próprio SVR informou na ocasião que os dois lados haviam acertado a manutenção de contatos para tratar de situações de crise e reduzir confrontações entre Washington e Moscou.

Meses depois, Naryshkin afirmou que ambos haviam combinado que poderiam entrar em contato diretamente sempre que surgisse um assunto de interesse comum.

Isso ajuda a entender o papel que os serviços de inteligência podem desempenhar mesmo entre países adversários. Esses canais não servem apenas para espionagem: eles também podem ser usados para evitar erros de cálculo, transmitir advertências que não serão tornadas públicas, negociar questões sensíveis ou esclarecer movimentos que um lado considera ameaçadores.

É nesse contexto que a visita de Ratcliffe ganha dimensão maior.

O alerta sobre Rússia e Otan

Nas semanas que antecederam a viagem, avaliações da inteligência americana passaram a apontar que o cálculo de risco de Putin pode estar mudando.

Segundo informações obtidas pela CBS News e pelo Wall Street Journal, autoridades americanas avaliam que o presidente russo pode estar mais disposto a autorizar ações destinadas a testar a determinação da Otan e do governo Trump.

Isso não significa que os Estados Unidos tenham concluído que a Rússia decidiu invadir um país da aliança.

Os cenários avaliados incluem medidas bem abaixo de uma guerra convencional: ataques cibernéticos, sabotagem, operações híbridas e outras ações nas quais a participação de Moscou possa ser difícil de provar. Um cenário mais grave de incursão territorial limitada também entrou nas avaliações, mas foi considerado menos provável.

A lógica de um possível “teste” é importante para entender a preocupação. A Otan estabelece pelo Artigo 5 que um ataque armado contra um integrante pode ser tratado como ataque contra toda a aliança. A zona mais perigosa, portanto, está justamente em ações suficientemente graves para pressionar um país-membro, mas ambíguas o bastante para gerar discussão sobre qual resposta coletiva seria necessária.

Outro sinal passou a ser observado simultaneamente.

O Wall Street Journal revelou que militares russos realizaram exercícios para testar a capacidade de receber uma eventual nova leva de mobilizados. Os preparativos incluíram questões bastante práticas: onde alojar essas pessoas, como alimentá-las, como equipá-las e como incorporá-las às forças militares.

Um dos exercícios ocorreu em Kaliningrado, território russo separado do restante do país e localizado entre Polônia e Lituânia, dois membros da Otan. Fontes de inteligência ocidentais também apontaram preparativos semelhantes em outras regiões russas.

Isso não significa que uma nova mobilização já tenha sido decretada. O próprio quadro descrito pelas fontes indica preparação para uma possibilidade, não uma decisão tomada.

Essa diferença é central: Moscou pode estar tentando preservar a capacidade de convocar mais militares caso precise, sem necessariamente ter decidido fazê-lo agora.

A Ucrânia continua no centro

A explicação mais imediata para a visita continua sendo a guerra na Ucrânia.

As tentativas americanas de reabrir negociações permanecem sem acordo sobre questões fundamentais, enquanto ucranianos e russos continuam realizando ataques em profundidade.

Nesse cenário, o pedido americano para que Kyiv não atacasse determinadas regiões enquanto Ratcliffe estivesse na Rússia tem uma explicação imediata de segurança: reduzir o risco de que uma operação ucraniana atingisse Moscou ou seus arredores justamente durante a presença de uma autoridade americana.

O pedido, sozinho, não significa que os EUA tenham concedido uma trégua à Rússia, nem prova algum acordo político com o Kremlin.

Ele demonstra, entretanto, que Washington considerou a missão suficientemente sensível para coordenar previamente uma janela sem ataques com Kyiv.

Pouco depois das 17h30 de terça-feira, horário de Moscou, o C-17 usado pela delegação americana deixou o aeroporto de Vnukovo e retornou a Riga, segundo dados públicos de rastreamento do voo.

A partir das 20h, uma nova onda de ataques começou a ser registrada em território russo. O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que suas forças interceptaram e destruíram 426 drones ucranianos até as 7h desta quarta-feira (26), em 16 regiões do país, incluindo a região de Moscou, Tambov, Nizhny Novgorod, Rostov e a Crimeia.

Entre os locais atingidos estava novamente o centro logístico da Wildberries em Kotovsk, na região de Tambov. Segundo o governador Yevgeny Pervyshov, o incêndio no complexo ultrapassou 100 mil metros quadrados e um funcionário ficou ferido.

A sequência não prova que a retomada dos ataques tenha relação com as conversas de Ratcliffe em Moscou. Ela mostra, porém, que a pausa solicitada pelos Estados Unidos durante a passagem da delegação não representou uma redução duradoura das operações ucranianas dentro da Rússia.

O que continua sem resposta

O Kremlin agora reconhece que Ratcliffe foi a Moscou para contatos entre os serviços de segurança, mas o conteúdo dessas conversas continua fora do registro público. Não foi divulgado com quais autoridades russas ele se reuniu nem quais assuntos específicos foram tratados.

Também não há confirmação de um encontro com Putin.

A existência dos alertas americanos sobre a Otan e dos preparativos russos para uma eventual mobilização torna esses temas relevantes para compreender o ambiente no qual a viagem ocorreu, mas não permite afirmar que Ratcliffe foi enviado para tratar deles.

Outras possibilidades também permanecem abertas. A CIA participou recentemente de negociações de troca de presos entre Estados Unidos e Rússia, inclusive de casos em que Ratcliffe esteve pessoalmente envolvido. Ao mesmo tempo, Washington e Moscou estão em lados opostos de outra crise estratégica: a pressão americana sobre o Irã, parceiro próximo da Rússia.

Até agora, nenhuma dessas hipóteses foi confirmada como pauta da missão.

O quadro ficou um pouco mais claro: o próprio Kremlin reconhece agora que a viagem envolveu contatos entre os serviços de segurança dos dois países. Ainda assim, Moscou e Washington continuam sem revelar o conteúdo das conversas.

A missão ocorreu em meio a uma guerra sem solução, sinais de preparação militar russa e preocupação americana com a postura de Putin diante da Otan. E, poucas horas depois da saída de Ratcliffe, os ataques ucranianos em profundidade voltaram em grande escala, mostrando que a janela criada para a visita foi pontual, e não uma mudança no curso da guerra.