O Tesouro dos Estados Unidos prepara um mecanismo para redirecionar ativos iranianos congelados ao ressarcimento de aliados do Golfo Pérsico, enquanto uma nova rodada de ataques mútuos em Ormuz neste sábado (6) voltou a colocar em risco o frágil cessar-fogo entre Washington e Teerã — e o Irã anunciou a suspensão das comunicações com os EUA, antes de Trump contradizer a afirmação horas depois.
Tesouro dos EUA mira ativos iranianos para cobrir danos no Golfo
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, determinou que sua equipe avalie o uso de ativos iranianos — incluindo recursos congelados e navios apreendidos — para financiar a reconstrução de aliados americanos no Golfo afetados por ataques do Irã desde o início da guerra, em fevereiro. A medida também contempla danos já causados, não apenas futuros.
A administração Trump já está em contato com os países do Golfo pedindo estimativas detalhadas de custos. Kuwait e Bahrein estão entre os mais afetados: bases militares americanas nos dois países foram alvejadas repetidamente, e instalações de gás natural liquefeito no Qatar sofreram danos avaliados em bilhões de dólares.
Publicidade
A movimentação representa uma escalada na pressão econômica contra Teerã — e sinaliza que Washington pretende transformar os próprios recursos iranianos em instrumento de responsabilização financeira pelo conflito.
Nova troca de ataques em Ormuz
Na madrugada deste sábado, forças americanas abateram quatro drones iranianos lançados em direção ao Estreito de Ormuz e, em seguida, atacaram dois postos de radar costeiros do Irã — em Goruk e na Ilha de Qeshm, ambos estrategicamente posicionados no Estreito. O Comando Central dos EUA afirmou que as ações foram defensivas e que os drones representavam ameaça ao tráfego marítimo regional.
O IRGC (Guarda Revolucionária Islâmica) apresentou uma versão diferente: segundo o órgão, o episódio começou quando os EUA tentaram escoltar ilegalmente petroleiros pelo Estreito sem coordenação iraniana. Quatro tankers teriam tentado cruzar à 1h30 da manhã; um foi atingido e os demais recuaram. O Irã revidou disparando mísseis contra a base aérea Ali Al Salem, no Kuwait, e contra instalações da 5ª Frota americana no Bahrein. Defesas aéreas kuwaitianas foram ativadas; sirenes soaram em Manama.
Os ataques do dia se somam a um episódio de dias antes, quando drones iranianos atingiram o principal aeroporto do Kuwait, danificaram um terminal, mataram uma pessoa e feriram dezenas.
Irã suspende negociações — e Trump contradiz
Mais cedo neste sábado, Teerã anunciou a suspensão das comunicações com os EUA para negociação de paz, citando ações israelenses no Líbano como motivo. Trump reagiu dizendo que o Irã não havia informado os EUA sobre nenhuma pausa e que os Estados Unidos não retomariam bombardeios, mas manteriam o bloqueio naval. "Blockade is a piece of steel", disse o presidente em entrevista à NBC.
Horas depois, numa reviravolta, Trump postou nas redes sociais que as conversas com o Irã estão "continuando" em "ritmo acelerado". Teerã não confirmou nem negou a afirmação.
As negociações indiretas entre os dois países giram em torno de uma proposta americana de reabertura de Ormuz e concessões nucleares iranianas, enquanto o Irã exige waiver de sanções, acesso a ativos congelados e fim do bloqueio naval imposto desde 13 de abril.
Trump intervém no Líbano
Em paralelo, Trump afirmou ter falado com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu — que havia pedido a retomada de ataques em Beirute — e com representantes do Hezbollah. Segundo o presidente americano, Israel concordou em não enviar tropas à capital libanesa e o Hezbollah concordou em cessar ataques ao território israelense. O Hezbollah não se pronunciou publicamente sobre o acordo descrito por Trump.
O conflito no Líbano é um nó nas negociações com o Irã: Teerã exige um cessar-fogo definitivo entre Israel e Hezbollah como condição para qualquer acordo de paz com Washington.
Impacto para o Brasil
O petróleo benchmark segue acima de US$ 100 o barril desde o início da guerra, em fevereiro — um patamar que, segundo o Programa Mundial de Alimentos da ONU, já coloca dezenas de milhões de pessoas em risco de insegurança alimentar global. Para o Brasil, o cenário é duplamente sensível: o país é exportador de petróleo e se beneficia de preços altos em receita, mas absorve o impacto no preço dos combustíveis internos, no câmbio e na pressão inflacionária. Qualquer nova escalada em Ormuz tende a elevar ainda mais as cotações do barril.



