Passageiros do cruzeiro MV Hondius começaram a deixar o navio neste domingo, 10, em Tenerife, nas Ilhas Canárias, após um surto de hantavírus que deixou três mortos e mobilizou uma operação internacional de evacuação e repatriação.

A retirada ocorreu com protocolos rígidos. Segundo a Associated Press, passageiros foram levados do navio para o porto de Granadilla em pequenas embarcações, escoltados por equipes com trajes de proteção, máscaras e respiradores. A operação envolve voos militares e governamentais para levar viajantes de diferentes países de volta a seus destinos.

O navio, de bandeira holandesa, havia ficado isolado após a confirmação de casos ligados ao vírus Andes, uma forma de hantavírus associada a quadros respiratórios graves. De acordo com o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, o ECDC, havia até este domingo oito casos reportados, sendo seis confirmados, dois prováveis e três mortes.

Apesar das imagens de evacuação chamarem atenção, autoridades de saúde têm reforçado que o risco para a população geral é baixo. A Organização Mundial da Saúde afirmou que o caso não deve ser tratado como “outro COVID”, e o ECDC classificou como muito baixo o risco para a população geral da União Europeia e do Espaço Econômico Europeu.

Por que há tanta proteção se o risco é baixo?

A resposta está no tipo de vírus envolvido e no ambiente do navio. O hantavírus costuma ser transmitido principalmente pelo contato com secreções de roedores infectados, especialmente por partículas presentes em urina, fezes e saliva contaminadas. Mas o vírus Andes tem uma característica específica: é o único hantavírus conhecido por poder se espalhar de pessoa para pessoa em situações raras, geralmente após contato próximo e prolongado com alguém doente.

Isso não significa que haja risco amplo de transmissão na população. Significa que passageiros, tripulantes e pessoas que tiveram contato direto com casos suspeitos ou confirmados precisam ser monitorados com mais rigor.

A AP informou que um dos cinco passageiros franceses retirados do navio apresentou sintomas durante o voo de repatriação para Paris. Todos foram colocados em isolamento rígido e devem passar por testes. Outros países também organizaram quarentena ou observação médica para passageiros que estavam a bordo.

O caso expõe uma dificuldade típica de surtos em navios: mesmo quando o risco público é controlado, o ambiente fechado, o deslocamento internacional e a presença de pessoas de vários países tornam a resposta sanitária mais complexa. Por isso, a operação em Tenerife foi desenhada para evitar contato dos passageiros com a população local e reduzir qualquer possibilidade de exposição durante o desembarque.

O que é hantavírus

Hantavírus é o nome de um grupo de vírus associado, na maior parte dos casos, ao contato com roedores infectados. Nas Américas, algumas formas podem causar síndrome pulmonar ou cardiopulmonar por hantavírus, uma doença rara, mas potencialmente grave.

O CDC, agência de saúde dos Estados Unidos, afirma que os sintomas do vírus Andes podem aparecer de 4 a 42 dias após a exposição. Os sinais iniciais incluem febre, fadiga e dores musculares. Em casos graves, a doença pode evoluir para comprometimento respiratório.

Não há tratamento antiviral específico para a infecção por hantavírus. O atendimento é de suporte, com monitoramento e cuidados médicos para controlar sintomas e complicações. Por isso, a detecção precoce e o isolamento de pessoas com sintomas são considerados pontos centrais da resposta.

Há risco para o Brasil?

Até o momento, não há informação oficial indicando risco direto para o Brasil a partir do surto no MV Hondius.

O Ministério da Saúde afirmou que o episódio no navio não representa risco para o país. Ainda assim, o caso tem relevância para o público brasileiro porque a hantavirose existe no Brasil e é acompanhada pelas autoridades sanitárias.

No país, a transmissão humana ocorre mais frequentemente pela inalação de partículas contaminadas formadas a partir de urina, fezes e saliva de roedores infectados. O Ministério da Saúde também registra que a transmissão pessoa a pessoa foi relatada de forma esporádica na Argentina e no Chile, sempre associada ao hantavírus Andes.

A leitura mais importante, portanto, é de equilíbrio. O surto no cruzeiro é grave para os envolvidos, exige quarentena e acompanhamento internacional, mas as autoridades não tratam o episódio como ameaça ampla à população.

O MV Hondius deve seguir para Roterdã, na Holanda, onde passará por desinfecção. A investigação sobre a origem do surto e o monitoramento de passageiros que deixaram o navio continuam sob coordenação internacional.