A Artemis II entrou na fase mais sensível de sua missão ao redor da Lua. Com amerissagem prevista para sexta-feira, 10 de abril, no Pacífico, ao largo de San Diego, o voo agora passa pela etapa que mais concentra atenção técnica da NASA: a reentrada na atmosfera terrestre e o retorno seguro do Orion com quatro astronautas a bordo. Depois de uma viagem de 10 dias, a cápsula chega ao momento em que o programa Artemis precisa provar, na prática, que seu sistema de volta à Terra está pronto para missões tripuladas mais ambiciosas.

O peso dessa etapa vai além do encerramento da missão. A própria NASA afirma que a Artemis II foi desenhada para confirmar que os sistemas da nave funcionam como previsto com tripulação a bordo no ambiente real do espaço profundo. Isso ganha importância extra porque a Artemis I, missão não tripulada de 2022, voltou à Terra com uma perda inesperada de material carbonizado no escudo térmico. A investigação concluiu que gases gerados dentro do material ablativo Avcoat não ventilaram como o esperado, o que elevou a pressão interna e provocou fissuras horizontais perto da superfície, com desprendimento de material em vários pontos.

Em vez de trocar o escudo da Artemis II, a NASA decidiu alterar o perfil de retorno. A agência informou que encurtou a distância percorrida pelo Orion entre a entrada na atmosfera e a amaragem para reduzir o tempo em que a cápsula permanece justamente na faixa de temperatura em que o fenômeno da Artemis I apareceu. Na prática, a volta desta semana virou o primeiro teste real dessa solução com astronautas a bordo, o que dá ao retorno um peso muito maior do que o de uma simples etapa final de calendário.

A sequência de reentrada também ajuda a explicar por que a NASA trata o momento com tanta cautela. Segundo a agência, o módulo de serviço será separado pouco antes de o Orion atingir a alta atmosfera, seguido por um burn final de ajuste de trajetória. A cápsula chegará à interface de entrada em velocidade máxima de aproximadamente 23.864 milhas por hora, atravessará um blackout planejado de comunicações de seis minutos com formação de plasma ao redor do veículo e submeterá a tripulação a até 3,9 Gs no perfil nominal de pouso. Depois disso, o Orion liberará os paraquedas drogue e, em seguida, os três paraquedas principais para desacelerar antes da amaragem. A Associated Press informou ainda que a margem para o ângulo de reentrada é de apenas um grau.

Nos últimos dias, a missão passou a combinar esse teste do veículo com procedimentos de preparação física da tripulação. No Flight Day 8, a NASA informou que os astronautas avaliaram a chamada orthostatic intolerance garment, peça usada sob o traje de sobrevivência para ajudar na manutenção da pressão arterial e da circulação durante a transição de volta à gravidade terrestre. A equipe também iniciou a organização da cabine, a fixação de equipamentos e a reinstalação dos assentos para a reentrada. Ou seja: a fase final da Artemis II não é apenas um evento de engenharia, mas também um ensaio operacional completo para o retorno humano do espaço profundo.

O desfecho da missão ocorre poucos dias depois de o voo bater o recorde de maior distância já alcançada por humanos em relação à Terra, com 252.756 milhas durante a passagem pelo lado oculto da Lua. Esse marco reforçou o valor histórico da viagem, mas o retorno é o que deve definir o resultado técnico mais importante da missão. Se a cápsula completar a reentrada dentro do perfil esperado, a NASA encerrará a Artemis II não apenas com um recorde simbólico, mas com a validação mais concreta até aqui do Orion como nave de ida e volta para a nova fase da exploração lunar.

Após a amaragem, a NASA informou que a tripulação será retirada do Orion e levada ao USS John P. Murtha para avaliações médicas antes do retorno à costa. Segundo a Associated Press, será a primeira operação de recuperação de uma tripulação lunar em conjunto entre NASA e Departamento de Defesa desde a Apollo 17, em 1972. Isso ajuda a medir o tamanho do momento: a Artemis II fecha uma viagem histórica, mas sua etapa final também funciona como a prova decisiva de que o programa está pronto para avançar.