O chanceler iraniano Abbas Araqchi chegou a Islamabad nesta sexta-feira (24) para consultas sobre uma possível retomada das negociações com os Estados Unidos, em meio à prorrogação do cessar-fogo entre Israel e Líbano e à pressão mantida no Estreito de Ormuz.
Donald Trump disse à Reuters que espera uma oferta do Irã para atender às exigências americanas, mas afirmou que ainda não sabe qual será o conteúdo da proposta. Ao mesmo tempo, Teerã negou que esteja prevista uma reunião direta com representantes dos Estados Unidos.
A movimentação ocorre em um momento em que a diplomacia regional tenta evitar que a guerra entre EUA, Irã e aliados se transforme em uma crise ainda mais ampla no Oriente Médio. O Paquistão passou a ocupar uma posição de ponte diplomática, enquanto Catar, Omã e Rússia aparecem como atores relevantes nas consultas conduzidas por Teerã.
Paquistão vira rota de negociação indireta
Segundo a Reuters, Araqchi foi ao Paquistão para discutir propostas relacionadas à retomada das negociações. O governo iraniano, no entanto, sustenta que eventuais preocupações de Teerã serão transmitidas a Islamabad, sem encontro direto com autoridades americanas.
Do lado dos Estados Unidos, Trump afirmou que não tem pressa para fechar um acordo e que busca “o melhor acordo” possível. A Casa Branca também indicou que Steve Witkoff e Jared Kushner devem viajar ao Paquistão para acompanhar as conversas.
A disputa central continua ligada às exigências americanas sobre o programa nuclear iraniano. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse que o Irã ainda tem uma “janela aberta” para escolher um acordo e abandonar uma arma nuclear de forma significativa e verificável.
Líbano entra como peça da negociação
A prorrogação do cessar-fogo entre Israel e Líbano por três semanas não é um detalhe isolado da crise. Ela se tornou uma das peças políticas usadas para tentar reduzir a pressão regional e abrir espaço para uma negociação mais ampla.
Israel e Líbano concordaram em estender a trégua em uma reunião na Casa Branca mediada por Trump. Apesar disso, a situação no sul do Líbano segue instável. Autoridades libanesas relataram mortes em ataque israelense, enquanto o Hezbollah afirmou ter derrubado um drone de Israel.
O Hezbollah, apoiado pelo Irã, rejeitou a ideia de que a trégua represente uma solução real. O deputado Ali Fayyad afirmou que o cessar-fogo é “sem sentido” diante do que classificou como ações hostis de Israel, incluindo bombardeios, assassinatos e demolições no sul do Líbano.
Na prática, a trégua no Líbano passou a funcionar como uma espécie de teste político. Para os Estados Unidos, ela ajuda a sustentar a narrativa de que ainda há espaço para negociação. Para o Irã, o Líbano segue como um ponto sensível, porque envolve diretamente o Hezbollah e o equilíbrio de forças na fronteira norte de Israel.
Ormuz continua no centro da crise
A pressão diplomática também está ligada ao Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes do comércio mundial de energia. A Reuters informou que apenas cinco navios cruzaram Ormuz nas últimas 24 horas, contra cerca de 130 por dia antes da guerra.
A queda no tráfego mostra que, mesmo com tentativas de negociação, a normalização da rota ainda está distante. Ormuz é estratégico porque concentra uma fatia relevante do transporte global de petróleo e derivados. Segundo a Agência Internacional de Energia, antes da crise, o fluxo de petróleo bruto e derivados pelo estreito girava em torno de 20 milhões de barris por dia.
Essa é a razão pela qual cada sinal de avanço ou fracasso nas conversas entre EUA e Irã tem impacto além do campo militar. Um acordo poderia aliviar parte da pressão sobre energia, fretes e expectativas de mercado. Um novo impasse, por outro lado, manteria a região em estado de incerteza.
Impacto para o Brasil
Para o Brasil, o efeito mais importante não está em uma participação direta no conflito, mas nas consequências econômicas de uma crise prolongada em Ormuz.
Se a rota seguir instável, o mercado internacional pode continuar pressionado por riscos no petróleo, nos combustíveis, no frete marítimo e no dólar. Esse tipo de choque externo costuma aumentar a cautela de investidores e pode dificultar o controle de preços em países importadores ou parcialmente expostos à dinâmica internacional de energia.
No caso brasileiro, o impacto não precisa aparecer de forma imediata na bomba de combustível para ter relevância econômica. A pressão pode chegar por cadeias de transporte, custos industriais, expectativas de inflação e variações cambiais.
Por isso, a negociação em Islamabad interessa também ao Brasil. O que está em jogo não é apenas uma conversa entre Washington e Teerã, mas a possibilidade de reabrir uma rota energética essencial e reduzir a tensão sobre mercados globais.
Crise segue sem desfecho
Apesar da viagem de Araqchi ao Paquistão e da expectativa de Trump por uma proposta iraniana, ainda não há confirmação de avanço concreto. O Irã nega reunião direta com autoridades americanas, e o cessar-fogo no Líbano segue contestado pelo Hezbollah.
A crise, portanto, permanece em uma zona intermediária: há movimentação diplomática suficiente para manter a possibilidade de acordo, mas não há sinais claros de que os principais obstáculos tenham sido removidos.
Enquanto isso, Ormuz continua sendo o termômetro mais sensível da crise. Se o tráfego marítimo voltar a subir, o mercado pode interpretar como sinal de distensão. Se continuar travado, a pressão sobre energia e diplomacia deve permanecer no centro da disputa.



