A ameaça de minas no Estreito de Ormuz virou um dos pontos centrais da crise marítima no Golfo porque afeta uma rota por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito transportados no mundo. Nos últimos dias, a Reuters informou que forças ocidentais passaram a organizar missões de limpeza na região, com a Itália pronta para enviar dois caça-minas dentro de uma possível operação multinacional.

A parte menos conhecida dessa história é que o universo de contramedidas contra minas navais não envolve apenas navios, sonar e mergulhadores. A Marinha dos EUA mantém há décadas um programa oficial de mamíferos marinhos que treina golfinhos-nariz-de-garrafa para detectar, localizar e marcar objetos submersos, incluindo minas. O ponto crucial, porém, é outro: até esta publicação, não há confirmação pública de que esses animais estejam sendo usados agora na operação ligada a Ormuz.

Que minas ameaçam Ormuz

No cenário atual de Ormuz, as ameaças citadas incluem minas de fundo, minas ancoradas por cabo, minas à deriva e limpet mines, que são cargas fixadas diretamente ao casco de uma embarcação. A própria cobertura da agência e um aviso naval citado por ela deixam claro, porém, que a ameaça em partes do estreito ainda “não é totalmente compreendida”, o que impede cravar publicamente um inventário exato e fechado do que foi ou não espalhado em cada trecho da rota.

Nos documentos oficiais da Marinha dos EUA, minas navais são descritas como artefatos explosivos autocontidos usados para destruir navios, submarinos ou negar acesso a determinadas áreas marítimas. A Navy também distingue minas rasas de fundo e minas ancoradas de influência, que podem reagir não apenas por contato físico, mas por assinaturas do alvo, como ruído e campo magnético.

Por que remover minas leva tanto tempo

Limpar um estreito como Ormuz não significa simplesmente entrar na área e explodir tudo o que aparece. O processo começa com detecção, localização e classificação dos contatos suspeitos, passa por identificação mais precisa e só depois chega à neutralização.É um trabalho lento e trabalhoso, com uso combinado de drones subaquáticos, robôs controlados remotamente, helicópteros, navios de contramedidas e mergulhadores.

O pacote de contramedidas de minas da Littoral Combat Ship, descrito pela própria Navy, foi desenhado justamente para isso: detectar, localizar e neutralizar minas de superfície, próximas da superfície, ancoradas e de fundo, enquanto o navio principal permanece fora da área mais perigosa. O sistema usa embarcação não tripulada, sonar de caça a minas, helicópteros e módulos específicos de neutralização para reduzir a exposição direta das tripulações.

Nos meios mais tradicionais, os navios caça-minas da classe Avenger usam sonar, vídeo, cortadores de cabo e dispositivos de detonação remota para encontrar e destruir minas ancoradas e de fundo. Esse tipo de operação ajuda a explicar por que países europeus passaram a discutir participação direta na segurança do estreito.

Onde entram os golfinhos treinados

O programa oficial administrado pela NIWC Pacific treina golfinhos-nariz-de-garrafa e leões-marinhos-da Califórnia para detectar, localizar, marcar e recuperar objetos em portos, áreas costeiras e águas abertas. Segundo a própria página do programa, os golfinhos são particularmente úteis para localizar minas submersas em ambientes rasos ou desordenados, onde sensores eletrônicos podem enfrentar mais dificuldades.

Há precedente operacional documentado. Em uma publicação oficial sobre o exercício RIMPAC 2018, a Marinha dos EUA informou que golfinhos do sistema Mark 7 foram usados em treinamento de contramedidas de minas para procurar e marcar minas simuladas. No relato, um dos animais detectou a mina, voltou para confirmar o contato e depois posicionou um marcador próximo ao objeto para orientar mergulhadores humanos na verificação.

O que se sabe sobre o uso deles agora em Ormuz

Até o momento, o que está publicamente descrito para a limpeza de Ormuz é o emprego de drones, sonar, helicópteros, robôs subaquáticos, navios caça-minas e mergulhadores. As reportagens recentes da Reuters sobre a operação não mencionam o uso atual de golfinhos treinados na região. Por isso, o enquadramento factual mais seguro é o seguinte: golfinhos treinados fazem parte do arsenal conhecido de contramedidas da Marinha dos EUA, mas seu emprego na crise atual de Ormuz não foi confirmado publicamente.

Essa distinção é importante porque o tema já mistura tecnologia militar, logística marítima e alto impacto econômico global. Em um estreito vital para a energia mundial e cercado por risco de novas apreensões de navios e ações assimétricas do Irã, até a simples suspeita de minas já altera rotas, seguros e custos de transporte. A limpeza, portanto, é menos um detalhe técnico do que uma etapa central para qualquer tentativa de normalizar a navegação em Ormuz.