Estados Unidos e México inauguraram uma planta de produção de moscas estéreis em Metapa de Domínguez, no Estado mexicano de Chiapas, perto da fronteira com a Guatemala, para tentar conter o avanço da bicheira-do-novo-mundo, parasita que ameaça rebanhos e já afetou o comércio de gado entre os dois países.

A unidade faz parte de uma estratégia binacional para ampliar a liberação de moscas estéreis em áreas afetadas. A expectativa é que a planta chegue, gradualmente, à capacidade de produzir até 100 milhões de moscas estéreis por semana, reforçando a resposta contra uma praga que havia sido controlada por décadas na América do Norte, mas voltou a preocupar autoridades sanitárias.

Parasita ataca tecido vivo

O problema é provocado pela Cochliomyia hominivorax, espécie conhecida em inglês como New World screwworm. Em português, ela é associada à mosca-da-bicheira. O risco não está na mosca adulta em si, mas nas larvas, que se desenvolvem em feridas ou aberturas naturais de animais de sangue quente.

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A fêmea deposita ovos em cortes, feridas, umbigo de animais recém-nascidos ou regiões como olhos, nariz, boca e genitais. Quando os ovos eclodem, as larvas entram no tecido e se alimentam de carne viva. Isso pode ampliar rapidamente a lesão, causar infecções secundárias e, se não houver tratamento, levar animais à morte.

A característica torna a praga diferente de outras larvas que se alimentam apenas de tecido morto. No caso da bicheira-do-novo-mundo, o parasita pode atacar tecido saudável, o que aumenta o risco para bovinos, animais domésticos, fauna silvestre e, mais raramente, seres humanos.

Como funcionam as moscas estéreis

A técnica usada por EUA e México parece contraditória à primeira vista: criar moscas para combater moscas. Mas o método tem lógica biológica. Em laboratório, pupas da espécie são esterilizadas por radiação. Depois, as moscas são liberadas em grande quantidade nas áreas afetadas.

Quando fêmeas selvagens acasalam com moscas estéreis, os ovos não geram descendentes viáveis. Como as fêmeas da espécie acasalam uma única vez, a repetição desse processo reduz a capacidade de reprodução da população selvagem e, com o tempo, pode derrubar a quantidade de insetos na região.

A estratégia é conhecida como Técnica do Inseto Estéril e já foi usada no passado em campanhas de erradicação da bicheira nos Estados Unidos. Na resposta atual, as moscas podem ser liberadas por aviões ou por estruturas terrestres, enquanto equipes de vigilância monitoram armadilhas e notificações em áreas de risco.

Surto afeta comércio de gado

A nova planta surge após a reemergência do parasita no México e sua chegada aos Estados Unidos. Autoridades americanas confirmaram em junho a detecção da praga no Texas e adotaram medidas de contenção, incluindo quarentenas, controle de movimentação de animais, vigilância e liberação acelerada de moscas estéreis.

O surto também teve efeito econômico. Os Estados Unidos mantiveram restrições à entrada de gado vivo mexicano, afetando uma cadeia comercial relevante para produtores dos dois lados da fronteira. No México, a crise levou pecuaristas a ampliar a engorda e o abate doméstico de animais que antes seriam enviados vivos ao mercado americano.

Por que o caso importa para o Brasil

Para o Brasil, o caso tem uma leitura diferente. A mosca-da-bicheira não é uma ameaça desconhecida no país; ela é um problema sanitário já associado à pecuária brasileira. O ponto de atenção está na comparação: enquanto o Brasil convive com a praga como desafio recorrente de manejo, EUA e México tratam a reemergência como questão de biosegurança, comércio e segurança alimentar.

A inauguração da fábrica em Chiapas mostra como pragas agropecuárias podem atravessar fronteiras, afetar mercados e exigir cooperação internacional. No centro da resposta está uma técnica simples em conceito, mas complexa em escala: inundar áreas de risco com moscas incapazes de gerar novas larvas para interromper o ciclo de reprodução do parasita.