Zohran Mamdani passou esta quarta-feira (7) em uma situação pouco óbvia: o prefeito de Nova York chamou a atuação de Israel em Gaza de “genocídio em curso” e, horas depois, virou alvo de manifestantes pró-Palestina nas ruas da própria cidade.
O protesto ocorreu no terceiro aniversário dos ataques do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023. Manifestantes se reuniram na região da Prefeitura de Nova York, em Lower Manhattan, e grupos envolvidos no ato acusaram Mamdani de ter abandonado parte das posições que defendia antes de chegar ao poder.
A questão, portanto, não é que Mamdani tenha se aproximado politicamente de Israel.
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No mesmo dia, ele classificou o 7 de Outubro como um conjunto de “horríveis crimes de guerra”, lamentou os israelenses mortos e sequestrados pelo Hamas e, na sequência, acusou o governo israelense de genocídio, ocupação e apartheid em relação aos palestinos. Também criticou o envio de armas americanas a Israel.
Então por que ele virou alvo?
Da campanha para a prefeitura
A principal acusação dos organizadores é que o discurso de Mamdani continuou radicalmente crítico a Israel, mas algumas decisões tomadas por sua administração ficaram mais moderadas.
Um dos maiores pontos de atrito é uma lei conhecida como Int. 1-B, aprovada pelo Conselho Municipal e relacionada à atuação da polícia durante protestos próximos a locais religiosos.
Os manifestantes dizem que a medida pode ser usada para dificultar atos diante de sinagogas que realizem eventos ligados a Israel. Na convocação do protesto, os organizadores chegaram a acusar Mamdani de “criminalizar” manifestações.
Mas o texto que entrou em vigor é mais limitado do que essa acusação sugere.
A versão final não criou uma proibição geral de protestar diante de sinagogas. Segundo o próprio Mamdani, ela passou basicamente a exigir que o Departamento de Polícia de Nova York formalize e registre as práticas que já utiliza quando há manifestações perto de locais de culto.
Mamdani decidiu não vetar a lei. Ao explicar a escolha, disse que a versão inicial levantava problemas constitucionais, mas que o texto final havia sido reduzido. Ao mesmo tempo, afirmou discordar da ideia de tratar todo protesto perto de um local religioso como um problema de segurança.
É justamente aí que surge a disputa: os grupos pró-Palestina temem que a polícia ganhe mais espaço para afastar manifestantes; a prefeitura sustenta que é possível proteger quem entra e sai de um local religioso sem eliminar o direito de protestar.
Segurança de sinagogas virou outro ponto de atrito
A segunda frente surgiu no fim de setembro, quando Mamdani apresentou a primeira estratégia municipal de Nova York dedicada especificamente ao combate ao antissemitismo.
O plano prevê US$ 6,4 milhões para organizações que trabalham com prevenção a crimes de ódio e apoio a vítimas, além de US$ 1 milhão para reforçar a segurança física de sinagogas e outros locais de culto.
Para a prefeitura, a justificativa é direta: proteger judeus e instituições religiosas diante do aumento dos crimes de ódio. Dados apresentados pela administração indicam que mais da metade dos crimes de ódio confirmados na cidade neste ano teve judeus como alvo.
Os organizadores do protesto enxergam outra coisa. Eles criticam o financiamento de organizações judaicas que consideram alinhadas ao sionismo e dizem que medidas apresentadas como proteção contra o antissemitismo também podem acabar protegendo instituições e eventos ligados a Israel de manifestações políticas.
O plano oficial, porém, apresenta os recursos de segurança como proteção contra violência e crimes de ódio e não como financiamento de atividades políticas em defesa de Israel.
Mamdani ficou no meio de uma disputa que ajudou a construir
Esse é o ponto central da crise.
Mamdani não deixou de chamar a guerra em Gaza de genocídio nem abandonou suas críticas a Israel. O que mudou foi sua posição: ele deixou de ser apenas um político e ativista defendendo essas bandeiras e passou a comandar uma cidade onde também precisa responder pela segurança de uma das maiores comunidades judaicas do mundo.
Para uma parcela do movimento pró-Palestina, essa mudança trouxe concessões demais.
Para setores da comunidade judaica, ocorre o contrário: mesmo as medidas contra o antissemitismo não apagaram as críticas ao prefeito por continuar usando termos como “genocídio” e “apartheid” para descrever a atuação de Israel.
Na noite desta quarta, a contradição ficou ainda mais visível. Mamdani participou de uma vigília em Union Square dedicada a vítimas israelenses e palestinas. Do lado de fora, manifestantes pró-Palestina voltaram a gritar contra ele.
O prefeito que chegou ao poder como uma das vozes americanas mais críticas a Israel agora enfrenta uma cobrança diferente: para seus antigos aliados nas ruas, as palavras continuam duras, mas as decisões de governo não são duras o suficiente.



