A guerra com o Irã abriu uma nova frente de pressão sobre a política externa britânica e empurrou o primeiro-ministro Keir Starmer para mais perto da Europa. Nesta quarta-feira, 1º de abril, Starmer afirmou que a instabilidade global gerada pelo conflito mostra que o Reino Unido precisa aprofundar laços econômicos e de defesa com aliados europeus.

A declaração foi dada em meio ao agravamento do atrito com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo a Reuters, Trump criticou repetidamente a decisão britânica de não aderir à guerra contra o Irã, chamando Starmer de “covarde”, dizendo que ele não era “Winston Churchill” e ironizando os porta-aviões britânicos como “brinquedos”.

Ao defender uma parceria mais próxima com a Europa, Starmer sinalizou que a crise no Oriente Médio está produzindo efeitos além do campo militar. O movimento tem peso político porque recoloca o Reino Unido ao lado de parceiros europeus num momento em que Londres tenta recalibrar sua posição internacional após o Brexit. Ao mesmo tempo, não há indicação de que o premiê esteja defendendo retorno ao mercado único ou à união aduaneira da União Europeia.

A fala do premiê também veio acompanhada de um gesto prático. O Reino Unido vai sediar uma reunião internacional para discutir a reabertura do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo. De acordo com a Reuters, a ministra do Interior britânica, Yvette Cooper, liderará uma reunião virtual com 35 países para discutir medidas diplomáticas e militares, incluindo proteção a petroleiros e segurança marítima.

O tema não surgiu do nada. Em 19 de março, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Holanda e Japão divulgaram uma declaração conjunta condenando ataques iranianos contra navios comerciais e infraestrutura civil e defendendo a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. No texto, os governos também disseram estar preparados para contribuir com esforços que garantam passagem segura pela rota.

Dias depois, em 23 de março, Downing Street informou que uma reunião do COBR tratou dos impactos econômicos e domésticos da crise no Oriente Médio. Segundo a leitura oficial, a prioridade do governo britânico era reduzir a escalada e encerrar a guerra o mais rápido possível, o que ajuda a explicar por que Londres tenta ligar segurança, economia e diplomacia europeia dentro do mesmo pacote político.

O pano de fundo desse reposicionamento inclui a tentativa britânica de se manter fora da guerra direta. Em 28 de fevereiro, líderes do E3 afirmaram em nota conjunta que o Reino Unido não participou dos ataques ao Irã e defenderam contenção e diplomacia. Agora, com Trump transformando a divergência em confronto público, Starmer tenta responder sem romper formalmente com Washington, mas aproximando-se mais de capitais europeias.

Na prática, a mensagem enviada por Londres é que a guerra com o Irã acelerou uma revisão estratégica. O Reino Unido não está anunciando retorno à União Europeia, mas está deixando claro que a segurança continental, a proteção das rotas energéticas e a coordenação política com o bloco voltaram a ganhar centralidade em sua agenda externa.