A guerra no Oriente Médio entrou em uma fase mais perigosa neste fim de semana. Os houthis do Iêmen, grupo alinhado ao Irã, passaram a atuar diretamente no conflito com ataques contra Israel, enquanto os Estados Unidos ampliam sua presença militar na região e discutem cenários que podem incluir operações terrestres limitadas em território iraniano.
Os houthis entraram formalmente na guerra no sábado ao lançar seus primeiros ataques contra Israel desde o início do conflito atual. Em paralelo, o grupo afirmou depois ter realizado um segundo ataque em menos de 24 horas, com uso de mísseis e drones, e prometeu continuar as operações militares nos próximos dias.
A entrada dos houthis tem peso estratégico porque abre mais uma frente regional de pressão sobre Israel e volta a colocar em risco o corredor marítimo do Bab el-Mandeb, passagem crítica entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden. Analistas ouvidos pela Reuters avaliam que uma retomada de ataques nessa rota aumentaria ainda mais a pressão sobre a economia global, que já sofre com a disrupção no Estreito de Ormuz.
A Al Jazeera informou que os houthis disseram ter disparado uma barragem de mísseis balísticos contra alvos militares israelenses no sul do país. A emissora também relatou que o Exército israelense afirmou ter interceptado um dos mísseis. O ataque ocorreu horas depois de sinais públicos de que o grupo poderia abandonar a posição de contenção e aderir diretamente à guerra.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos seguem reforçando a capacidade militar no entorno do conflito. A Reuters informou que o primeiro de dois contingentes de fuzileiros navais americanos chegou à região na sexta-feira a bordo de um navio de assalto anfíbio. Em reportagem anterior, a agência já havia noticiado a expectativa de envio de mais 3 mil a 4 mil soldados ao Oriente Médio, embora sem decisão formal, naquele momento, para emprego de tropas dentro do Irã.
O novo elemento é que, segundo reportagem citada pela Al Jazeera, o Pentágono prepara planos para semanas de operações terrestres limitadas no Irã. De acordo com o relato, baseado em autoridades americanas ouvidas pelo Washington Post, os cenários considerados não equivalem a uma invasão total, mas poderiam incluir ações de forças especiais e infantaria convencional em pontos estratégicos, como a ilha de Kharg e áreas costeiras próximas ao Estreito de Ormuz.
A Casa Branca, porém, indicou que isso ainda não significa decisão política final. Segundo a Al Jazeera, a porta-voz Karoline Leavitt afirmou que preparar opções militares faz parte do trabalho do Pentágono e não representa, por si só, uma decisão do presidente Donald Trump. A própria reportagem ressalta que ainda não está claro se Trump aprovará qualquer operação terrestre em território iraniano.
Os reforços militares já em andamento ajudam a entender por que esse debate ganhou tração. A Al Jazeera relatou que cerca de 3.500 soldados adicionais chegaram ao Oriente Médio a bordo do USS Tripoli, junto com a 31ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais, além de aeronaves e outros ativos táticos. A Reuters, por sua vez, já havia apontado que o acúmulo de tropas ampliaria a capacidade americana para possíveis operações futuras na região.
No lado iraniano, o discurso também ficou mais agressivo. A Reuters informou que o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, acusou Washington de falar em negociação enquanto prepara um ataque por terra, e afirmou que Teerã responderá se soldados americanos forem enviados. A Al Jazeera registrou declarações na mesma linha, com ameaças diretas contra tropas e meios navais dos EUA caso se aproximem da zona de combate.
O que torna este momento especialmente relevante é a combinação de dois movimentos simultâneos: de um lado, a guerra se espalha regionalmente com a entrada efetiva dos houthis; de outro, os EUA acumulam meios militares e avaliam opções que podem ir além da campanha aérea e naval. Essa leitura é uma inferência a partir do encadeamento factual reportado por Reuters e Al Jazeera.
Na prática, isso aumenta o risco de o conflito deixar de ser apenas uma guerra de mísseis, drones e ataques aéreos e passar a incluir disputas mais amplas sobre rotas marítimas, ilhas estratégicas e posições costeiras. Também eleva a pressão sobre comércio, energia e seguros marítimos, num cenário em que Ormuz e Bab el-Mandeb podem ficar sob ameaça ao mesmo tempo.
O dado mais importante até agora é este: os houthis já passaram da ameaça para a ação, enquanto a eventual operação terrestre americana continua no nível de planejamento e discussão, sem confirmação oficial de execução. Essa diferença é central para a leitura do momento atual da guerra.



