Lula afirmou que aconselhou o ministro Alexandre de Moraes a se declarar impedido em temas ligados ao caso Master, numa fala que recolocou o episódio no centro do debate político e institucional em Brasília. Em entrevista ao ICL, o presidente disse que o caso afeta a imagem do Supremo Tribunal Federal e afirmou que, em situações envolvendo a atuação profissional da esposa de Moraes, o ministro deveria deixar isso claro e se afastar de votações relacionadas ao tema.

A declaração ganhou peso porque veio acompanhada de outro alerta de Lula: segundo o presidente, uma eventual delação premiada de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, precisaria ser acompanhada com mais cautela. Na entrevista, Lula disse que “mais gente” deveria acompanhar os depoimentos porque, nas palavras dele, poderia haver uma “delação comprada”, o que amplia a temperatura política de um caso que já vinha se espalhando por diferentes frentes de investigação e controle.

O momento da fala não é trivial. Na véspera, Alexandre de Moraes liberou para julgamento no STF uma ação que pede limites para a delação premiada. A ação foi protocolada pelo PT em 2021 e ainda não tem data marcada para análise em plenário, mas voltou ao radar justamente quando Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel preparam proposta de colaboração. Entre os pontos levantados na ação estão a discussão sobre a validade de delações firmadas por réus presos cautelarmente e o uso de depoimentos de colaboradores como base para medidas cautelares e condenações.

Com isso, a fala de Lula deixa de ser apenas uma manifestação política isolada e passa a se encaixar num contexto mais amplo: de um lado, o presidente diz que Moraes deveria se declarar impedido; de outro, o próprio Supremo se movimenta em torno de uma ação que questiona os limites das delações em um momento em que a colaboração de Vorcaro é tratada como uma peça potencialmente explosiva para o caso Master.

Nesta quinta-feira, o caso ganhou um novo desdobramento institucional. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União pediu ao procurador-geral da República acesso à eventual delação de Daniel Vorcaro. Segundo a CNN Brasil, o subprocurador Lucas Rocha Furtado afirmou que os relatos do ex-banqueiro podem servir para instrução de procedimentos e processos de controle externo no âmbito do TCU. Se a colaboração ainda não tiver sido formalizada, o pedido é para que ao menos sejam compartilhadas informações gerais sobre fatos que possam ter relação com recursos públicos ou com órgãos sob jurisdição do tribunal.

Esse movimento reforça que o caso Master já ultrapassou a esfera estritamente criminal ou financeira e passou a ser observado também sob a ótica do controle institucional e do eventual impacto sobre agentes públicos. Em outras palavras, a eventual delação de Vorcaro interessa não apenas a investigadores e tribunais, mas também a órgãos de fiscalização que tentam medir o alcance administrativo e político do caso.

Outro ponto relevante veio da CPI do Crime Organizado. Em depoimento no Senado em 8 de abril, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, negou ter atuado pessoalmente em favor do Banco Master perante o STF e o Palácio do Planalto. Ele também confirmou que participou, em dezembro de 2024, de uma reunião no Palácio com Lula, Daniel Vorcaro e ministros, mas afirmou que sua atuação se limitou a encaminhar o assunto à área técnica do Banco Central. Segundo Galípolo, nenhum processo ligado ao Master foi tema de suas conversas com ministros do Supremo.

Esse depoimento ajuda a entender por que o caso continua irradiando consequências políticas. O Banco Master não é mais tratado apenas como uma crise bancária. O episódio passou a reunir Planalto, Banco Central, CPI, STF, TCU e possíveis acordos de colaboração, criando uma sobreposição de esferas que aumenta o peso público de cada nova fala ou movimento processual.

No pano de fundo, o caso já havia produzido desdobramentos importantes nos meses anteriores. Em fevereiro, Dias Toffoli decidiu se afastar da relatoria do caso Master no STF, e o processo foi redistribuído a André Mendonça. A Reuters também registrou que o Banco Master foi liquidado após o Banco Central apontar crise severa de liquidez, deterioração financeira e violações graves de regras, o que consolidou o caso como uma das principais frentes de tensão institucional do início de 2026.

Há ainda novos elementos orbitando o caso nesta quinta-feira. A CNN Brasil publicou que a empresa WF Comunicação, do advogado Fabio Wajngarten, recebeu ao menos R$ 3,8 milhões para atuar na defesa de Vorcaro, de acordo com documentos da Receita Federal enviados à CPI do Crime. O dado amplia a rede de personagens e reforça que a crise segue produzindo ramificações políticas, jurídicas e midiáticas quase em tempo real.