Panorama da crise
Nos últimos dias, as relações entre Estados Unidos e União Europeia atravessam uma das suas maiores crises recentes. O centro da tensão é a postura do presidente Donald Trump em torno da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca, que Trump tem pressionado para que seja negociado com Washington, inclusive com ameaças tarifárias.
Trump condicionou a suspensão de tarifas à permissão de “buyout” (compra/controle total) da Groenlândia pelos EUA e associou sua ofensiva a motivos pessoais, como sua frustração por não ter recebido o Nobel da Paz de 2025, segundo mensagem divulgada pelo governo da Noruega.
O que a UE está planejando em resposta
1) Ameaça de retaliação econômica com grandes tarifas
A União Europeia estuda contramedidas tarifárias em resposta à ameaça de tarifas dos EUA. Uma das opções é ativar um pacote de ≈ €93 bilhões em tarifas sobre importações americanas (equivalente a cerca de US$ 108 bilhões) como resposta escalonada às ações de Washington.
2) Uso do Anti-Coercion Instrument
O bloco também considera ativar o Instrumento Anticoerção (Anti-Coercion Instrument, ACI), mecanismo inédito que permite restringir o acesso de empresas estrangeiras a contratos públicos, investimentos e serviços como forma de resposta a pressões econômicas externas.
3) Emergência diplomática em Bruxelas
Embaixadores da UE se reuniram em caráter de emergência para discutir a resposta à pressão americana, refletindo uma preocupação crescente com a coerção comercial e política de Washington.
4) Pressão política interna no Parlamento Europeu
Parlamentares europeus têm pedido até o fim de acordos com os Estados Unidos como resposta às ameaças tarifárias, qualificadas por líderes europeus como “inaceitáveis” e “cruzamento de linha vermelha”.
Contextualização dos fatos
• Tarifas anunciadas pelos EUA: Trump declarou que países que se opõem à anexação/compra da Groenlândia enfrentariam tarifas de importação começando em 10% em 1º de fevereiro e subindo até 25% em junho, como forma de pressionar aliados europeus.
• Reação popular: Protestos significativos ocorreram em bases europeias e dentro da própria Groenlândia e Dinamarca, com milhares nas ruas rejeitando qualquer controle americano sobre a ilha.
• Encontro em Davos: Líderes europeus, incluindo o chanceler alemão e a Noruega, planejam encontros com Trump no World Economic Forum em Davos (Suíça) para tentar desarmar a crise.
Impactos e riscos geopolíticos
• Ruptura no Atlântico norte: A disputa ameaça debilitar laços tradicionais de cooperação transatlântica, pondo em risco a coesão dentro da NATO e da UE com os Estados Unidos, especialmente em temas de segurança e comércio.
• Mercados sob tensão: A ameaça de tarifas e retaliações tem gerado apreensão nos mercados financeiros, reativando memórias dos conflitos comerciais de 2025.
• Soberania e direito internacional: Governos europeus e líderes de Groenlândia têm reafirmado que a decisão sobre o futuro da ilha deve ser dos próprios groenlandeses e da Dinamarca, citando respeito ao direito internacional.
Declarações chave — Europa
Lars Løkke Rasmussen (Ministro das Relações Exteriores da Dinamarca):
“Nós não negociamos pessoas. Você pode comercializar bens, mas não negociamos povos.”
• Líderes como o presidente francês Emmanuel Macron e o primeiro-ministro britânico Keir Starmer qualificaram as ações americanas como chantagem e erro político, insistindo em soluções diplomáticas.
Conclusão
A crise em torno da Groenlândia não é apenas uma disputa territorial, mas um episódio com potencial de reconfigurar relações comerciais e estratégicas entre a Europa e os Estados Unidos. A resposta europeia combina ferramentas econômicas inéditas e um esforço diplomático para preservar a coesão da aliança ocidental e reafirmar a soberania de aliados menores diante de pressões externas.



