O anúncio do chamado “Conselho de Paz” proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou reações cautelosas entre líderes internacionais e abriu um novo flanco de debate diplomático envolvendo diretamente o Brasil e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Apresentada como uma iniciativa para lidar inicialmente com o conflito em Gaza e, posteriormente, com outras crises internacionais, a proposta levanta questionamentos sobre governança, legitimidade internacional e concentração de poder.
Como funcionaria o Conselho de Paz
Segundo informações divulgadas pela Reuters, Trump convidou 60 países para integrar o chamado Board of Peace. A estrutura prevê que os países participantes tenham mandatos de três anos, com uma exceção significativa: Estados que contribuírem com US$ 1 bilhão teriam direito à membresia permanente (Membros permanentes → não precisariam renovar mandato e não perderiam a vaga com o tempo).
Outro ponto central é o papel do próprio Trump, que assumiria o posto de presidente vitalício do conselho. Além disso, o órgão começaria seus trabalhos focado em Gaza, com possibilidade de expansão para outros conflitos internacionais.
Até o momento, apenas a Hungria manifestou aceitação inequívoca ao convite, o que reforça a postura de cautela adotada por grande parte da comunidade internacional.
Estrutura paralela para Gaza e nomes indicados
Além do conselho principal, a Casa Branca anunciou a criação de um “Gaza Executive Board”, composto por 11 membros. Entre os nomes citados estão o secretário de Estado americano Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e Jared Kushner.
Trump também presidiria esse conselho específico, e novos integrantes devem ser anunciados nas próximas semanas. Um dado que chamou atenção nas informações divulgadas é que não há representantes palestinos entre os nomes mencionados até agora.
Relação com a ONU e o fator financeiro
A proposta surge em paralelo a um mandato aprovado pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas em novembro, que autoriza um conselho de paz limitado ao conflito em Gaza e com validade apenas até 2027.
O contexto financeiro também pesa. De acordo com autoridades da ONU, os Estados Unidos, responsáveis por 22% do orçamento regular da organização, acumulam uma dívida de US$ 1,5 bilhão com o órgão, o que alimenta interpretações de que a iniciativa de Trump possa funcionar como uma alternativa política às estruturas multilaterais tradicionais.
O envolvimento do Brasil e o dilema de Lula
No Brasil, a proposta ganhou contornos políticos sensíveis após Trump convidar diretamente o presidente Lula para participar do conselho. Segundo análise publicada pela CNN Brasil, ainda não está claro como o conselho funcionaria na prática, nem quais seriam seus limites institucionais.
De acordo com a mesma análise, Trump pretende escolher pessoalmente os integrantes, definir a pauta dos debates e manter poder de veto sobre qualquer decisão, o que coloca o eventual ingresso brasileiro em uma posição delicada.
A avaliação é de que o convite representa uma armadilha política de difícil saída para Lula: aceitar pode significar endossar uma estrutura altamente centralizada; recusar pode gerar ruídos diplomáticos com os Estados Unidos.
Cautela internacional e bastidores
A reação predominante entre líderes globais tem sido de prudência, com receio de que o conselho esvazie ou contorne mecanismos multilaterais já existentes. Nos bastidores, a proposta é vista menos como um consenso internacional e mais como uma iniciativa desenhada sob forte controle político da Casa Branca.
Enquanto isso, o Brasil observa o movimento com atenção, ciente de que qualquer decisão terá repercussões tanto no cenário externo quanto no debate político interno.



