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Guerras fora do campo de batalha: como rotas, cabos e energia viraram alvos estratégicos

20 de dezembro de 20254 min de leitura

As guerras do século XXI estão cada vez menos concentradas nas linhas de frente tradicionais. Em vez de confrontos diretos e contínuos entre exércitos, cresce o número de disputas travadas fora do campo de batalha, em áreas que sustentam o funcionamento do mundo moderno: infraestrutura, energia e rotas comerciais.

Nos últimos meses, episódios distintos — no Mar Báltico, no Mar Vermelho e no Caribe — passaram a revelar uma lógica comum. Conflitos diferentes, atores diversos, mas a mesma engrenagem estratégica: pressionar sistemas vitais sem necessariamente recorrer a uma guerra declarada.

Cabos submarinos e a expansão silenciosa da guerra na Europa

A guerra entre Rússia e Ucrânia segue concentrada, militarmente, no território ucraniano. No entanto, seus efeitos vêm transbordando para o norte da Europa, especialmente para o Mar Báltico, uma das regiões mais sensíveis do planeta em termos de infraestrutura submarina.

Nos últimos anos, cabos de comunicação e energia localizados no fundo do mar foram danificados ou interrompidos, acionando investigações por parte de países europeus. Esses cabos são responsáveis por transmitir dados, internet e eletricidade entre nações inteiras — sua interrupção não é um detalhe técnico, mas um risco direto à segurança nacional.

Autoridades e analistas passaram a tratar o tema como infraestrutura crítica, elevando o nível de alerta e reforçando medidas de proteção. Países da Europa e do Sudeste Asiático, inclusive, iniciaram discussões conjuntas sobre a defesa desses cabos diante do aumento dos riscos globais.

Embora algumas investigações tenham descartado sabotagem direta em casos específicos, o simples fato de os cabos terem se tornado foco de atenção revela uma mudança clara: a conectividade virou parte do tabuleiro geopolítico.

O Mar Vermelho e a pressão sobre o comércio global

Enquanto a Europa lida com riscos invisíveis sob a água, outra frente ganhou destaque no Oriente Médio. Desde o fim de 2023, ataques e ameaças a navios no Mar Vermelho, associados ao conflito regional envolvendo o Iêmen e a escalada no entorno de Israel, passaram a afetar uma das rotas comerciais mais importantes do planeta.

O resultado foi imediato. Grandes companhias de navegação, como a Maersk, optaram por desviar embarcações que normalmente cruzariam o Canal de Suez, obrigando navios a contornarem o continente africano. A mudança representa semanas adicionais de viagem, aumento nos custos de seguro e elevação do frete marítimo.

Mesmo empresas e países sem envolvimento direto no conflito passaram a sentir os efeitos. O comércio global, altamente dependente de cadeias logísticas eficientes, mostrou-se vulnerável a disputas regionais que extrapolam seus limites geográficos.

Esse tipo de pressão não exige ocupação territorial nem confronto direto. Basta tornar uma rota insegura para gerar impactos econômicos globais.

EUA e Venezuela: pressão estratégica no Caribe

No Caribe, a lógica é diferente, mas o efeito segue o mesmo padrão. A relação entre Estados Unidos e Venezuela voltou a se deteriorar com o endurecimento de sanções e bloqueios que atingem diretamente o petróleo, principal fonte de renda venezuelana.

Não se trata de uma guerra aberta entre Estados, mas de um ambiente de pressão constante, no qual decisões políticas e econômicas produzem instabilidade regional. Qualquer sinal de escalada já é suficiente para influenciar preços, investimentos e expectativas no mercado internacional de energia.

Nesse contexto, o petróleo deixa de ser apenas um recurso econômico e passa a funcionar como instrumento de disputa geopolítica, com reflexos que ultrapassam o Caribe e alcançam economias de diferentes continentes.

O impacto fora das zonas de guerra

O ponto central desses três cenários não está apenas nos conflitos em si, mas no local onde eles começam a gerar efeito. Infraestrutura, energia e logística passaram a ocupar o centro das disputas modernas.

Quando cabos são danificados, rotas desviadas ou fluxos de energia pressionados, o impacto aparece antes mesmo de qualquer escalada militar formal. Países ajustam políticas, empresas recalculam riscos e sociedades inteiras passam a lidar com consequências indiretas de guerras que ocorrem a milhares de quilômetros de distância.

Mais do que batalhas visíveis, a guerra contemporânea avança onde o mundo funciona — nos sistemas que mantêm economias conectadas, mercados abastecidos e Estados operando.

Publicado por Redação Trendahora • Internacional