As guerras do século XXI estão cada vez menos concentradas nas linhas de frente tradicionais. Em vez de confrontos diretos e contínuos entre exércitos, cresce o número de disputas travadas fora do campo de batalha, em áreas que sustentam o funcionamento do mundo moderno: infraestrutura, energia e rotas comerciais.

Nos últimos meses, episódios distintos — no Mar Báltico, no Mar Vermelho e no Caribe — passaram a revelar uma lógica comum. Conflitos diferentes, atores diversos, mas a mesma engrenagem estratégica: pressionar sistemas vitais sem necessariamente recorrer a uma guerra declarada.

Cabos submarinos e a expansão silenciosa da guerra na Europa

A guerra entre Rússia e Ucrânia segue concentrada, militarmente, no território ucraniano. No entanto, seus efeitos vêm transbordando para o norte da Europa, especialmente para o Mar Báltico, uma das regiões mais sensíveis do planeta em termos de infraestrutura submarina.

Nos últimos anos, cabos de comunicação e energia localizados no fundo do mar foram danificados ou interrompidos, acionando investigações por parte de países europeus. Esses cabos são responsáveis por transmitir dados, internet e eletricidade entre nações inteiras — sua interrupção não é um detalhe técnico, mas um risco direto à segurança nacional.

Autoridades e analistas passaram a tratar o tema como infraestrutura crítica, elevando o nível de alerta e reforçando medidas de proteção. Países da Europa e do Sudeste Asiático, inclusive, iniciaram discussões conjuntas sobre a defesa desses cabos diante do aumento dos riscos globais.

Embora algumas investigações tenham descartado sabotagem direta em casos específicos, o simples fato de os cabos terem se tornado foco de atenção revela uma mudança clara: a conectividade virou parte do tabuleiro geopolítico.

O Mar Vermelho e a pressão sobre o comércio global

Enquanto a Europa lida com riscos invisíveis sob a água, outra frente ganhou destaque no Oriente Médio. Desde o fim de 2023, ataques e ameaças a navios no Mar Vermelho, associados ao conflito regional envolvendo o Iêmen e a escalada no entorno de Israel, passaram a afetar uma das rotas comerciais mais importantes do planeta.

O resultado foi imediato. Grandes companhias de navegação, como a Maersk, optaram por desviar embarcações que normalmente cruzariam o Canal de Suez, obrigando navios a contornarem o continente africano. A mudança representa semanas adicionais de viagem, aumento nos custos de seguro e elevação do frete marítimo.

Mesmo empresas e países sem envolvimento direto no conflito passaram a sentir os efeitos. O comércio global, altamente dependente de cadeias logísticas eficientes, mostrou-se vulnerável a disputas regionais que extrapolam seus limites geográficos.

Esse tipo de pressão não exige ocupação territorial nem confronto direto. Basta tornar uma rota insegura para gerar impactos econômicos globais.

EUA e Venezuela: pressão estratégica no Caribe

No Caribe, a lógica é diferente, mas o efeito segue o mesmo padrão. A relação entre Estados Unidos e Venezuela voltou a se deteriorar com o endurecimento de sanções e bloqueios que atingem diretamente o petróleo, principal fonte de renda venezuelana.

Não se trata de uma guerra aberta entre Estados, mas de um ambiente de pressão constante, no qual decisões políticas e econômicas produzem instabilidade regional. Qualquer sinal de escalada já é suficiente para influenciar preços, investimentos e expectativas no mercado internacional de energia.

Nesse contexto, o petróleo deixa de ser apenas um recurso econômico e passa a funcionar como instrumento de disputa geopolítica, com reflexos que ultrapassam o Caribe e alcançam economias de diferentes continentes.

O impacto fora das zonas de guerra

O ponto central desses três cenários não está apenas nos conflitos em si, mas no local onde eles começam a gerar efeito. Infraestrutura, energia e logística passaram a ocupar o centro das disputas modernas.

Quando cabos são danificados, rotas desviadas ou fluxos de energia pressionados, o impacto aparece antes mesmo de qualquer escalada militar formal. Países ajustam políticas, empresas recalculam riscos e sociedades inteiras passam a lidar com consequências indiretas de guerras que ocorrem a milhares de quilômetros de distância.

Mais do que batalhas visíveis, a guerra contemporânea avança onde o mundo funciona — nos sistemas que mantêm economias conectadas, mercados abastecidos e Estados operando.