O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou nesta terça-feira (5) que o cessar-fogo com o Irã continua em vigor, apesar da troca de ataques e da operação militar americana para escoltar navios comerciais no Estreito de Ormuz.

A declaração foi feita em uma coletiva no Pentágono, em meio ao aumento da tensão na região. Segundo Hegseth, a trégua “não acabou”. A fala reforça a tentativa de Washington de separar a operação naval em Ormuz de uma retomada formal da guerra contra o Irã.

O chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, general Dan Caine, também afirmou que os ataques recentes atribuídos ao Irã ainda estariam abaixo do limite para reiniciar grandes operações de combate. Segundo ele, desde o anúncio do cessar-fogo, o Irã teria disparado contra navios comerciais nove vezes, apreendido dois navios porta-contêineres e atacado forças americanas mais de dez vezes.

Os números foram apresentados por autoridades dos Estados Unidos e não puderam ser verificados de forma independente. O Irã nega parte das acusações e acusa Washington de violar a trégua ao ampliar a presença militar no estreito.

Operação em Ormuz aumenta disputa sobre os limites da trégua

A tensão se concentra no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para petróleo, gás natural e fertilizantes. Os Estados Unidos dizem ter iniciado uma operação temporária para abrir passagem a navios comerciais retidos na região.

Hegseth afirmou que as forças americanas preferem que a missão seja conduzida de forma pacífica, mas disse que os militares estão preparados para reagir caso a situação mude. Segundo ele, Washington espera que outros países assumam maior responsabilidade pela segurança da via marítima.

Na prática, a fala do Pentágono cria uma distinção importante: para os EUA, a operação em Ormuz seria uma ação de proteção ao tráfego comercial, não uma retomada da guerra contra o Irã. Para Teerã, porém, a presença militar americana e o bloqueio naval representam uma violação do cessar-fogo.

Essa disputa sobre o que conta ou não como violação da trégua se tornou o centro político da crise. Enquanto Washington tenta manter a narrativa de que o cessar-fogo segue vivo, o Irã busca apresentar a operação americana como uma escalada militar direta.

Versões contraditórias elevam risco de erro de cálculo

Os dois lados apresentaram versões conflitantes sobre os confrontos no estreito. Os EUA dizem ter destruído pequenas embarcações iranianas e interceptado drones e mísseis. Autoridades iranianas, por outro lado, negam a versão americana e afirmam que embarcações civis foram atingidas.

Ao menos um navio de bandeira americana teria deixado o Golfo sob escolta militar, segundo a empresa Maersk. O Irã, porém, negou que travessias tenham ocorrido.

A falta de uma versão verificável aumenta o risco de erro de cálculo. Em um ambiente com navios comerciais, forças navais, drones, mísseis e acusações cruzadas, um incidente localizado pode rapidamente ganhar peso político e pressionar os dois lados a responder.

Por que Ormuz importa para o Brasil

Embora a crise esteja concentrada no Oriente Médio, o Estreito de Ormuz tem impacto direto sobre cadeias globais que chegam ao Brasil. A rota é estratégica para o transporte de petróleo, gás natural liquefeito e fertilizantes.

Segundo a FAO, o mercado de fertilizantes já sofre choques imediatos com a crise. A entidade afirmou que, até meados de abril, os preços da ureia haviam subido 60% no Brasil, em meio às interrupções ligadas ao estreito.

Esse ponto é central para a economia brasileira porque fertilizantes mais caros pressionam custos do agronegócio e podem se refletir, com atraso, em alimentos, margens de produtores e inflação. O impacto não depende apenas de uma guerra aberta: uma interrupção prolongada ou instável em Ormuz já pode afetar preços, seguros, fretes e abastecimento.

Cessar-fogo segue vivo, mas mais frágil

A declaração de Hegseth não encerra a crise. Pelo contrário: mostra que o cessar-fogo continua formalmente em vigor, mas sob uma pressão crescente.

A posição dos EUA indica que Washington ainda tenta evitar a reabertura plena da guerra, mesmo respondendo militarmente em Ormuz. Já o Irã tenta manter pressão sobre a rota marítima e sobre países aliados dos americanos na região.

O resultado é uma trégua cada vez mais dependente de interpretação política. O cessar-fogo não foi declarado encerrado, mas os confrontos no Estreito de Ormuz mostram que a fronteira entre contenção e escalada está cada vez mais estreita.