
Internacional
COP30 passou. O que realmente mudou após a conferência do clima em Belém
03 de janeiro de 2026 • 4 min de leitura
A COP30, realizada em Belém, foi apresentada como a “COP da implementação”. Diferentemente de edições anteriores, o discurso oficial prometia menos declarações genéricas e mais execução concreta. Passadas cerca de seis semanas desde o encerramento da conferência, o que se observa é um cenário desigual: alguns países começaram a traduzir compromissos em decisões reais, enquanto outros mantiveram o discurso — ou caminharam na direção oposta.
O pós-COP30 expõe uma realidade recorrente nas negociações climáticas globais: a distância entre o consenso diplomático e a ação política doméstica.
Europa: regulação como resposta imediata
A União Europeia foi o bloco que apresentou os sinais mais claros de continuidade após a COP30. Em dezembro, a Comissão Europeia confirmou oficialmente a meta de reduzir as emissões em 90% até 2040, reforçando o alinhamento do bloco com uma trajetória de longo prazo.
Pouco depois, entrou em vigor o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), que passa a taxar importações com base na intensidade de carbono. A medida, que começou a valer em 1º de janeiro de 2026, sinaliza que a política climática europeia deixou de ser apenas ambiental para se tornar também comercial e industrial.
O movimento europeu contrasta com o ritmo de outros atores globais e reforça a estratégia de transformar compromissos climáticos em regras econômicas permanentes.
China: discurso de implementação, contradições estruturais
A China manteve uma postura cautelosa no pós-COP30. Autoridades chinesas afirmaram que o país trabalhará para implementar os resultados da conferência, reiterando o discurso de cooperação multilateral.
Ao mesmo tempo, dados recentes mostram uma desaceleração na aprovação de novas usinas a carvão em 2025, o menor nível em alguns anos. Ainda assim, o país segue sendo o maior emissor global e mantém uma base energética fortemente apoiada em combustíveis fósseis, mesmo liderando investimentos em energia limpa.
O caso chinês ilustra uma das principais contradições do debate climático atual: avanço acelerado na transição energética coexistindo com estruturas fósseis ainda centrais para o crescimento econômico.
Estados Unidos: sinais de recuo regulatório
Nos Estados Unidos, o período pós-COP30 foi marcado por decisões que caminham em sentido contrário ao discurso climático global. Reportagens apontam para a reversão de regulações ambientais, abertura de áreas federais para exploração energética e enfraquecimento de proteções ambientais ao longo do fim de 2025.
A política climática norte-americana voltou a depender fortemente de iniciativas subnacionais e do setor privado, enquanto o governo federal adotou uma postura mais permissiva em relação à exploração de recursos fósseis.
O contraste com a retórica internacional evidencia como mudanças de orientação política interna seguem sendo um dos maiores fatores de instabilidade na agenda climática global.
Índia: cobrança por financiamento e ritmo próprio
A Índia reforçou, no pós-COP30, um discurso já conhecido: países em desenvolvimento não podem acelerar a transição sem acesso a financiamento em larga escala. Autoridades indianas destacaram que o debate climático precisa sair da escala de “bilhões” e avançar para “trilhões”.
Apesar de avanços na expansão de energias renováveis, a Índia ainda não apresentou atualizações formais de suas metas climáticas mais recentes, mantendo uma posição cautelosa entre crescimento econômico, segurança energética e compromissos ambientais.
França e Alemanha: ruídos e prioridades distintas
Entre as maiores economias europeias, os sinais também foram mistos. A França entrou no pós-COP30 com atrasos na publicação de seu novo plano energético de médio prazo, gerando incertezas sobre a velocidade da transição no país.
Já a Alemanha manteve seu papel como grande financiadora internacional de projetos climáticos, mas também foi alvo de críticas diplomáticas após declarações políticas que minimizaram simbolicamente o peso da conferência em Belém.
O pano de fundo energético global
Uma análise publicada pela Reuters no fim de dezembro reforça esse cenário ambíguo. Em 2025, investimentos em energia limpa bateram recordes globais, superando pela primeira vez o capital direcionado a novos projetos fósseis. Ao mesmo tempo, a produção de petróleo e gás seguiu elevada, e subsídios diretos e indiretos aos combustíveis fósseis continuam presentes em diversas economias.
O resultado é um sistema energético global em transição desigual: vitórias claras do lado limpo, mas recuos e resistências suficientes para impedir uma ruptura definitiva com o modelo anterior.
O que o pós-COP30 revela
Mais do que anúncios feitos em Belém, o período seguinte à COP30 expôs um padrão claro:
– países com arcabouço regulatório sólido avançam mais rápido;
– grandes emissores mantêm estratégias híbridas;
– governos politicamente instáveis tendem a recuar;
– economias emergentes seguem pressionando por financiamento real.
A COP30 marcou um ponto de inflexão no discurso. O pós-COP mostra que a credibilidade climática, agora, será medida menos pelas promessas assinadas e mais pelas decisões tomadas longe dos palcos internacionais.
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